Glossário

Palavras para compreender

34 termos que acompanham o percurso do livro.

Amadurecimento

Transformação pela qual a pessoa compreende melhor a vida e se torna mais capaz de responder ao bem. Reúne entendimento, sensibilidade, exercício e convivência. Pode continuar através de falhas e recomeços. Amplia possibilidades de ação; não eleva a dignidade nem compra o Amor de Deus.

Amor

Reconhecimento de alguém em sua realidade própria e disposição de desejar e favorecer seu bem. Inclui afeto, mas não se reduz a um sentimento presente. Precisa de atenção para distinguir o que o outro necessita daquilo que gostaríamos de oferecer ou receber.

Amor de Deus

A Relação Amorosa pela qual Deus acolhe e sustenta cada pessoa. É anterior ao desempenho, não se esgota em nossa percepção e não depende de competição por mérito. Essa afirmação constitui fundamento religioso do livro; sua coerência precisa ser examinada diante das dificuldades da existência.

Autonomia

Capacidade de participar da condução da própria vida, em condições concretas de compreensão e escolha. Pode precisar de apoio. Reconhecê-la exige ouvir a pessoa e ampliar suas possibilidades, inclusive quando depender de auxílio. Autonomia e interdependência podem existir juntas.

Caridade

O amor que assume uma presença responsável diante da vida de alguém. Pode tornar-se auxílio, companhia, proteção, justiça, escuta ou respeito a uma distância necessária. Seu critério é o bem e a dignidade de quem é alcançado, sem exigir retorno religioso ou afetivo.

Comunhão

Relação de pertencimento e amor que conserva a realidade própria das pessoas. A união não transforma experiências distintas numa única mente nem distribui indistintamente memória, culpa ou responsabilidade. Estar unido a alguém pode aprofundar o reconhecimento de que essa pessoa é diferente de nós.

Comunidade

Convivência organizada de pessoas em torno de uma fé e de práticas de cuidado. Sua legitimidade depende do modo como serve e responde pelo poder que exerce. Precisa de participação, transparência, liberdade de consciência e condições reais de crítica e saída.

Consciência

A presença de uma experiência para alguém: perceber, sentir, reconhecer e responder a uma realidade. Suas manifestações corporais variam. O livro distingue consciência, personalidade e memória, afirmando como fé a continuidade da mesma pessoa consciente além da morte, sem apresentar como conhecido o mecanismo dessa continuidade.

Consciência moral

Capacidade de perceber o significado das próprias escolhas para a vida de quem é atingido por elas e de responder a essa percepção. Aprende com atenção, razões, afetos, relações e consequências. Não é um fiscal infalível nem uma voz cuja intensidade garanta estar correta.

Consolo

Presença que ajuda a sustentar uma dor sem negar sua realidade. Pode incluir cuidado, compreensão e esperança. Não exige encerrar o luto nem encontrar uma utilidade para a perda. Seu valor está também em permitir que alguém atravesse o que ainda não consegue explicar.

Continuidade pessoal

Permanência da própria pessoa, com consciência individual, identidade e história significativa, depois da morte corporal. É diferente de sobreviver apenas nas lembranças ou nos efeitos deixados sobre outros. A doutrina afirma essa continuidade como fé e conserva abertas as perguntas sobre suas condições.

Corpo

Dimensão viva pela qual experimentamos, agimos e nos relacionamos nesta existência. Seu valor não desaparece por haver esperança espiritual. Cuidar do corpo, respeitar seus limites e aliviar seu sofrimento participam do reconhecimento da pessoa que vive através dele.

Criação

Relação pela qual a existência tem em Deus seu Fundamento e recebe dEle Sustentação. O termo identifica uma compreensão religiosa do fundamento da vida; não pretende substituir explicações científicas sobre processos naturais. Deus e as criaturas conservam distinção, mesmo quando a vida depende dEle.

Culpa

Palavra que pode indicar responsabilidade por uma conduta ou o sentimento que acompanha sua percepção. É preciso distinguir esses sentidos: alguém pode sentir culpa sem ter causado o dano, ou ser responsável sem experimentar remorso. O exame deve considerar atos, condições e pessoas atingidas.

Dignidade

Valor fundamental de ser alguém, anterior a capacidades, êxitos, reputação e adesão religiosa. Justifica cuidado e respeito. Reconhecê-la não torna todas as condutas aceitáveis; torna relevantes tanto a proteção de quem sofreu quanto a responsabilidade de quem precisa interromper um dano.

Discernimento

Trabalho de compreender uma situação, distinguir possibilidades e julgar razões. Requer atenção aos efeitos, aos limites do próprio conhecimento e à experiência de outras pessoas. Impressões íntimas podem ser consideradas, mas não recebem autoridade sobre a vida alheia por parecerem intensas.

Espírito

Modo de nomear a pessoa em sua dimensão espiritual e em sua continuidade para além da vida corporal. O uso não supõe uma descrição física de substância, lugar ou mecanismo. Refere-se a alguém com identidade própria, não a uma parcela que se dissolve numa consciência impessoal.

Esperança

Confiança que abre a vida a um bem possível e sustenta disposição para continuar. A esperança religiosa do livro afirma continuidade e comunhão no Amor de Deus. Sua verdade vivida não depende de prever cada acontecimento, apagar a saudade ou garantir os resultados que desejamos.

Fé

Adesão refletida a convicções religiosas que orientam a compreensão e a vida. Pode acolher razões e enfrentar objeções sem confundir-se com demonstração experimental. A firmeza de uma fé é compatível com reconhecer limites e conservar a liberdade de quem não a compartilha.

Fundamento

Compromisso que constitui a identidade religiosa da obra, como Deus Amoroso, Jesus como modelo e guia e a continuidade consciente da pessoa. Suas interpretações podem mudar. Os próprios fundamentos podem ser examinados; revisá-los substancialmente exige reconhecer a transformação que isso produz.

Gratuidade

Qualidade do que é recebido sem ter sido comprado pelo desempenho de quem recebe. O Amor de Deus é afirmado como gratuito. Na experiência humana, a gratuidade permite oferecer cuidado sem converter sua aceitação em dívida de submissão, gratidão ou reciprocidade.

Identidade pessoal

O fato de uma vida continuar sendo a vida de alguém através de suas mudanças. Não se confunde inteiramente com personalidade atual, aparência, capacidade de narrar lembranças ou reconhecimento social. Essa distinção permite formular a continuidade sem exigir que uma pessoa permaneça psicologicamente imóvel.

Interpretação

Compreensão humana pela qual procuramos esclarecer o sentido, as relações e as consequências de uma afirmação. Precisa responder a argumentos e à experiência. A força de um compromisso religioso não torna automaticamente definitiva cada interpretação feita a partir dele.

Jesus como modelo e guia

Referência espiritual central para aprender o amor mediante proximidade, verdade, misericórdia e serviço. Segui-lo é um aprendizado de compreensão e ação, não uma competição por imitação impecável. O livro interpreta humanamente os relatos evangélicos e não atribui a Jesus novas falas.

Justiça

Cuidado com as condições pelas quais vidas, direitos e responsabilidades são reconhecidos de modo adequado. Inclui proteção, apuração, reparação e transformação de relações injustas. Pertence à caridade porque o amor considera também como decisões e estruturas distribuem riscos, possibilidades e poder.

Liberdade

Capacidade situada de compreender, escolher e agir, sempre em relação com corpo, história e condições sociais. Pode ser ampliada ou restringida. O amadurecimento aprofunda a possibilidade de responder com consciência, enquanto o cuidado procura criar condições para essa resposta.

Memória

Conjunto de capacidades e formas pelas quais o vivido é conservado, reconhecido ou retomado. O acesso atual às lembranças pode mudar sem que a pessoa perca dignidade ou deixe de ser a mesma pessoa. O modo da memória além da morte permanece questão aberta.

Misericórdia

Amor atento à fragilidade e à possibilidade de recomeço. Consegue reconhecer a realidade de um dano sem reduzir uma pessoa à sua falha. Sua presença é compatível com proteção, responsabilização e limites; precisa alcançar também quem foi ferido.

Oração

Relação voluntária pela qual alguém se dirige a Deus com sua experiência. Pode reunir gratidão, pedido, dúvida, protesto e silêncio. Seu sentido não depende de uma linguagem especial nem transforma fé em garantia de resultado. A oração pode favorecer atenção e responsabilidade na vida comum.

Perdão

Transformação possível da relação de uma pessoa com uma ofensa sofrida. Pertence à liberdade de quem foi atingido. Não equivale automaticamente a esquecer, reconciliar-se ou voltar a confiar. Sua linguagem não deve impor à vítima a tarefa de confortar quem a feriu.

Personalidade

Modo singular e mutável pelo qual disposições, afetos, hábitos e formas de expressão se organizam numa pessoa. Pode sofrer mudanças profundas, inclusive por condições corporais. Não resume toda a identidade nem determina sozinha o valor da existência.

Reparação

Resposta ao dano que procura reconhecer sua realidade, interromper sua continuidade e restaurar o que for possível. Pode exigir restituição, mudança de conduta, proteção e transformação institucional. Seu valor permanece mesmo quando não alcança perdão ou reconciliação.

Responsabilidade

Relação entre uma pessoa, sua participação num acontecimento, suas possibilidades de compreensão e ação e os deveres que daí surgem. Pede análise concreta. Responder por um ato é diferente de ser condenado por toda a existência; o outro também permanece alguém cuja vida importa.

Vínculo

Relação que participa de uma história e pode conservar significado através de mudanças e ausências. A esperança de continuidade pessoal permite confiar no aprofundamento da comunhão. O valor do vínculo não dá posse sobre a experiência, as escolhas ou a forma futura de existência do outro.