Unismo › O livro › Parte II · Capítulo 3: A unidade e os centros da experiência
Questão 15 de 168
15.Uma consciência e muitas consciências: não é contradição?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
Não, porque a unidade é afirmada do fundamento e a pluralidade, das pessoas. Haveria contradição imediata se se afirmasse que existe exatamente um centro individual de experiência e, no mesmo sentido, muitos centros individuais. O livro distingue a realidade consciente fundamental, numericamente una, das pessoas, realmente distintas. A unidade é predicada do fundamento; a pluralidade, dos sujeitos situados.
Essa distinção permite atribuições precisas. Uma pessoa conhece determinada promessa; outra a ignora. O conhecimento e a ignorância pertencem a perspectivas distintas. Não se está dizendo que o mesmo sujeito individual sabe e não sabe a mesma coisa sob as mesmas condições. A relação com um fundamento comum não transfere os predicados pessoais de um centro para outro.
A objeção mais forte começa depois desse esclarecimento: talvez ser uma consciência exija possuir uma perspectiva própria e indivisa. Se for assim, como chamar consciente a uma realidade cuja unidade não foi definida por um campo único de vivência? E, caso exista esse campo, como as perspectivas privadas se relacionam com ele sem perder sua realidade?
A interpretação adotada admite que a unidade consciente possa ser mais fundamental que a unidade de acesso característica da pessoa humana. Isso formula a tese e evita uma contradição produzida por confusão de sujeitos. Ainda não demonstra sua possibilidade metafísica. Resta explicar o vínculo pelo qual os diversos centros são manifestações de uma consciência, em vez de apenas consciências distintas às quais se atribuiu um nome comum. A contradição se desfaz; a explicação continua devida.
A natureza oferece um caso em que unidade e multiplicidade convivem sem contradição. Um ser humano é um só organismo e, ao mesmo tempo, dezenas de trilhões de células, cada uma viva, com metabolismo próprio, organizadas em tecidos, órgãos e sistemas; abaixo delas, moléculas, átomos e partículas. A unidade do organismo não é negada pela multiplicidade das células, e a vida de cada célula não é anulada pela unidade do organismo. A analogia tem um limite preciso, que a doutrina declara: o organismo é composto por suas células, ao passo que a consciência fundamental não é composta pelas pessoas; a relação afirmada vai do fundamento às manifestações, e não das partes ao todo. O exemplo mostra que “um e muitos” não é, em si, uma contradição; não mostra como a unidade consciente se manifesta em sujeitos.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Dizer que uma realidade é una num aspecto e múltipla em outro não é contradição. O livro afirma um fundamento e muitas pessoas; não afirma uma única pessoa que seria várias ao mesmo tempo. Isso desfaz uma confusão inicial. Ainda falta mostrar que a distinção entre um fundamento consciente e sujeitos privados explica alguma coisa real.
Aprofundamento
O exemplo da promessa permite localizar os predicados: uma pessoa sabe, outra ignora. A contradição surgiria se o mesmo sujeito soubesse e não soubesse o mesmo conteúdo sob as mesmas condições. Como a obra não identifica irrestritamente as pessoas entre si, essa contradição determinada não se segue. A frase ‘a contradição se desfaz’ deve ser entendida nesse alcance; ela não demonstra que toda concepção possível de consciência seja compatível com a unidade postulada.
A objeção mais forte pergunta se estar consciente já implica ser um sujeito com perspectiva própria. Se implicar, a diferença entre campos individuais poderia mostrar uma pluralidade de realidades conscientes, e não apenas de acessos. O livro propõe distinguir as duas unidades, mas precisa dar conteúdo à relação que as articula. Evitar um erro lógico elementar é uma condição do argumento, não sua conclusão metafísica.
A analogia do organismo tem função limitada e expressamente marcada pelo original. Um organismo e suas células mostram que a forma verbal ‘um e muitos’ pode descrever aspectos diferentes sem incoerência. Não demonstram a relação entre uma consciência una e pessoas distintas: o organismo é composto de células, enquanto o livro nega que o fundamento seja composto de pessoas. Além disso, estar vivo e ser um sujeito consciente não são a mesma propriedade. A analogia derrota uma objeção excessivamente geral contra qualquer unidade com multiplicidade; não responde à objeção específica sobre a individuação da experiência.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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