Livro do Amor e da Consciência · pergunta 122

Como pedir sem transformar a oração numa negociação?

Pedir é reconhecer uma necessidade e confiar que ela pode ser acolhida. Uma criança doente, uma relação ameaçada, o medo do futuro ou a falta do necessário podem tornar o pedido muito concreto. Não precisamos transformar essa linguagem humana numa fórmula abstrata para dirigir-nos a Deus. O sofrimento real merece palavras reais. A sinceridade da oração inclui dizer o que desejamos, mesmo quando não sabemos compreender tudo o que envolve esse desejo.

A negociação começa quando imaginamos que Deus pode ser obrigado por uma oferta, uma promessa ou uma quantidade de devoção. Nesse esquema, a relação se organiza como troca: fazemos algo para adquirir um resultado. O Amor de Deus, porém, antecede nosso desempenho. A caridade não compra Sua Atenção, e o sofrimento não acumula crédito diante dEle. Podemos oferecer um compromisso por gratidão ou por desejo de transformação, mas seu valor não está em torná-Lo devedor.

É compreensível procurar algum controle quando a vida parece ameaçada. Uma promessa pode surgir do desespero, e quem a fez não merece desprezo. O amadurecimento talvez consista em perceber que a necessidade de cuidado era verdadeira, enquanto a tentativa de garantir o resultado colocava um peso impossível sobre a própria fé. Uma pessoa pode libertar-se dessa lógica e continuar orando. Pode dizer: desejo profundamente este bem e preciso de amparo para atravessar o que ainda não compreendo.

Também devemos cuidar do modo como interpretamos o resultado. Se aquilo que pedimos acontece, a gratidão não nos autoriza a concluir que fomos mais amados do que quem viveu outro desfecho. Se não acontece, a perda não demonstra insuficiência de fé ou Recusa Divina. Não conhecemos uma correspondência verificável entre mérito, intensidade da oração e acontecimentos. Atribuir essa correspondência pode acrescentar culpa a quem já sofre e transformar uma experiência favorável em medida de superioridade.

O pedido pode, ao mesmo tempo, abrir nossa disposição para agir. Quem pede reconciliação pode começar por reconhecer sua parte num conflito; quem pede alívio para alguém pode oferecer presença; quem pede discernimento pode aceitar uma informação incômoda. Isso não significa que todo resultado dependa de nós. Muitas circunstâncias ultrapassam nossa capacidade. A ação possível expressa participação, enquanto a oração oferece lugar também para aquilo que permanece fora de nosso alcance.

Há pedidos que mudam à medida que a pessoa amadurece. A vontade inicial de controlar a decisão de alguém pode tornar-se desejo de sua liberdade e de seu bem. A busca de uma vida sem qualquer vulnerabilidade pode dar lugar ao pedido de coragem, apoio e lucidez. Essa mudança não precisa ser forçada. Ela nasce do encontro entre amor e realidade.

Pedir sem negociar é conservar a intimidade do desejo e reconhecer a Liberdade de Deus. Podemos esperar, agradecer, protestar e continuar buscando ajuda. A confiança não elimina a incerteza; permite atravessá-la sem imaginar que o valor de nossa vida está sendo decidido pelo resultado de cada pedido.

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