Livro do Amor e da Consciência · pergunta 067
Por que crescer espiritualmente se o Amor de Deus já nos alcança?
A pergunta faz sentido quando imaginamos o crescimento como uma condição para receber algo. Se o prêmio já estivesse garantido, o esforço perderia sua função. Mas essa estrutura descreve apenas um tipo de motivação. Aprendemos a conversar melhor porque uma relação importa, cuidamos de um jardim porque sua vida nos interessa e buscamos compreender alguém porque desejamos encontrá-lo com mais verdade. O valor do aprendizado pode estar naquilo que ele permite viver, antes de qualquer recompensa.
O Amor de Deus nos alcança antes de nosso amadurecimento. Isso significa que crescer não serve para convencer Deus a nos considerar dignos. Serve para ampliar nossa capacidade de participar do bem que reconhecemos. Uma pessoa pode ser amada e, ainda assim, agir de modo que fere a si e aos outros. Sua dignidade permanece, mas a qualidade de suas relações sofre. Aprender a amar transforma essa qualidade e oferece razões suficientes para desejar a mudança.
É importante distinguir o bem de ser amado do bem de saber responder. Receber cuidado pode sustentar uma vida mesmo quando ela ainda não sabe retribuir. Com o tempo, porém, compreender o valor do outro abre possibilidades de reciprocidade, cooperação e presença. Essas possibilidades possuem valor próprio. Quem aprende a escutar não recebe apenas uma nota melhor sobre sua conduta; passa a conhecer aspectos das pessoas que antes não conseguia alcançar.
A segurança do Amor Divino pode tornar esse aprendizado menos defensivo. Quando uma correção não ameaça nosso direito de existir, temos mais liberdade para examiná-la. Podemos reconhecer impaciência, vaidade ou indiferença sem concluir que precisamos esconder tudo para conservar aceitação. A mudança se orienta então para o dano que pode ser reduzido e para o bem que pode ser realizado. O centro se desloca da necessidade de parecer digno para a disposição de responder dignamente à vida alheia.
Isso não elimina dificuldades. Às vezes sabemos por que deveríamos mudar e continuamos presos a hábitos que oferecem vantagens imediatas. A consciência precisa encontrar meios concretos de reorganizar a ação: pedir ajuda, estabelecer limites, praticar uma resposta diferente e aceitar o tempo necessário. O Amor recebido não executa essas escolhas em nosso lugar. Ele oferece uma relação na qual podemos realizá-las sem transformar cada tropeço em expulsão do caminho.
O crescimento também pode incluir descobrir que certas exigências não pertencem ao amor. Uma pessoa que sempre se sacrificou para evitar rejeição talvez amadureça ao aprender a descansar e dizer não. Outra pode precisar oferecer mais de si. Não há uma única aparência exterior do avanço; importa compreender que liberdade e cuidado estão sendo ampliados em cada situação.
Crescemos porque as pessoas são reais e porque nossa maneira de encontrá-las pode tornar a vida mais habitável. O Amor de Deus sustenta esse movimento, e Jesus oferece uma direção concreta de serviço e verdade. O bem deixa de funcionar como pagamento por uma aceitação futura. Torna-se uma forma de participar, desde agora, da comunhão para a qual nossa consciência pode abrir-se.
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