Livro do Amor e da Consciência · pergunta 078

O que significa confiar alguém amado ao Amor de Deus?

Durante a vida compartilhada, o amor costuma expressar-se em ações que conseguimos realizar: visitar, proteger, preparar algo, ouvir uma preocupação. Quando alguém morre, essas formas de participação se interrompem. A pessoa que ficou pode sentir que já não sabe como amar, porque seus gestos perderam o destinatário acessível. Confiar alguém ao Amor de Deus nasce nesse limite. É reconhecer que a vida de quem amamos permanece, embora já não esteja sob nosso alcance pelos meios habituais.

Esse gesto de confiança não entrega a Deus uma propriedade que antes nos pertencia. A pessoa sempre teve uma existência própria, maior do que nossa capacidade de cuidar e compreender. O amor humano participava de seu bem sem constituir toda a fonte de sua vida. Diante da morte, essa diferença se torna dolorosamente clara. Confiamos que Deus a conhece em sua singularidade e a sustenta com um Amor que não depende da vigilância de quem ficou. Podemos deixar de tentar controlar o que já não nos cabe sem abandonar a relação que vivemos.

Tal confiança pode acolher também a inquietação por coisas inacabadas. Talvez tenha faltado uma conversa, um pedido de perdão ou um gesto que agora parece decisivo. Essas faltas merecem ser examinadas com honestidade, mas não precisam receber o poder de definir toda a história. Uma relação é composta de muitos momentos e de perspectivas que nunca dominamos inteiramente. Confiar a pessoa a Deus inclui confiar que ela não está reduzida à nossa última lembrança nem aprisionada no ponto exato em que nossa convivência se interrompeu. O que ficou por dizer pode ser levado à oração como expressão verdadeira de nosso amor e de nosso limite.

A esperança não exige uma emoção específica. Podemos dirigir uma oração a Deus e continuar sentindo saudade, medo ou revolta. O ato de confiar talvez precise ser retomado muitas vezes, conforme a ausência assume novas formas. Há dias em que o gesto se parece com gratidão; em outros, com um pedido humilde de ajuda para suportar o que não compreendemos. Sua sinceridade não depende de produzir paz imediata. A relação com Deus comporta aquilo que realmente conseguimos apresentar, inclusive a dificuldade de confiar.

Confiar alguém ao Amor Divino permite ainda voltar nossa atenção ao cuidado dos vivos sem sentir que estamos deixando a pessoa desamparada. Sua continuidade não depende de nossa tristeza permanente. Podemos honrar sua história, conservar o que foi bom e aprender a viver o presente que nos cabe. A esperança de reencontro permanece aberta dentro da comunhão que desejamos, sem exigir detalhes ou sinais. A pessoa amada continua sendo alguém diante de Deus; nós continuamos sendo alguém chamado a viver. O vínculo pode atravessar essa diferença de condições com saudade, liberdade e uma confiança que cresce sem apagar a importância de tudo que compartilhamos.

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