Unismo › O livro › Parte VII · Capítulo 19: Contemplação oração e esperança
Questão 141 de 168
141.O que se contempla, se tão pouco se sabe do criador?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
Contempla-se a existência em sua relação com o fundamento professado. Contempla-se o fato de vivermos sem sermos autores de todas as condições que nos permitem viver, a singularidade das pessoas e o horizonte que ultrapassa nosso domínio. A atenção se demora nesses conteúdos sem exigir que todos se tornem imediatamente um instrumento de ação. Ela reúne uma compreensão do que se crê com a disposição de reconhecer valor no que se apresenta.
A reverência pode nascer dessa disposição. Reverenciar é reconhecer uma importância diante da qual o desejo de dispor de tudo encontra seu limite. Para o adepto, a referência ao princípio criador situa esse reconhecimento numa relação religiosa. A dependência, tomada isoladamente, não prova bondade nem obriga à adoração de qualquer poder. A reverência aqui proposta se articula com o valor atribuído à existência e com o cuidado devido às suas manifestações singulares.
A gratidão admite uma distinção próxima. Agradecer a alguém por um cuidado identifica um benefício recebido e uma ação que se reconhece. Falar em gratidão pela existência pode exprimir uma disposição mais ampla de acolher o valor de viver e os bens encontrados, sem afirmar que cada acontecimento foi uma dádiva intencional. Orientada ao princípio criador, essa gratidão expressa o reconhecimento religioso do fundamento; não estabelece, por si, uma vontade providencial que tenha escolhido cada benefício.
Essa maneira de contemplar permite alegria sem aprovação indiscriminada do mundo. É possível agradecer um cuidado e lamentar a violência que o tornou necessário. É possível reconhecer beleza e continuar diante de perguntas dolorosas sobre a criação. O valor da prática está em sustentar essa atenção inteira, capaz de receber um bem e de nomear uma injustiça, sem fazer de um a explicação apressada da outra. A contemplação aprofunda uma relação com o que se professa; sua intensidade não demonstra a verdade dessa profissão.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Contempla-se a vida: a sua dependência de condições que não escolhemos, a singularidade das pessoas e o fundamento em que quem adere acredita. Reverenciar é reconhecer um valor que limita a pretensão de dispor de tudo. Agradecer pela existência pode ser acolher os bens dela, sem afirmar que cada acontecimento foi escolhido por uma vontade benevolente.
Aprofundamento
O problema mais forte é que depender de algo não basta para considerá-lo digno de reverência. A dependência também existe em relações opressivas. O próprio texto responde acrescentando o valor reconhecido à existência e o cuidado devido às pessoas; assim, a disposição reverente não é uma dedução neutra da relação de dependência. Ela articula uma crença sobre o ser e uma avaliação do que merece reconhecimento.
A gratidão exige cuidado semelhante. Agradecer a uma pessoa costuma reconhecer uma intenção ou ação benéfica. Quando se fala em gratidão pela existência, o livro admite uma disposição de acolhimento que não precisa conter essa atribuição. Se o adepto a dirige ao criador, o gesto ganha orientação religiosa; não se torna por isso evidência de que o criador planejou cada benefício. A distinção dá conteúdo ao ato sem importar silenciosamente a providência que a questão 67 deixou aberta.
Contemplar pode também modificar a relação com bens presentes: perceber que uma convivência vale por si, receber uma alegria sem apropriá-la e reconhecer limites do próprio controle. Isso não obriga a chamar bom o conjunto de tudo o que acontece. A possibilidade de agradecer um cuidado e deplorar a violência que o exigiu preserva a crítica moral. Permanece a pergunta sobre a relação global entre criação e sofrimento; a contemplação a acompanha e pode torná-la mais viva, mas não a resolve por seu efeito subjetivo.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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