Unismo › O livro › Parte III · Capítulo 7: As ordens do tempo
Questão 50 de 168
50.Se há um conjunto de todas as existências, tudo já está decidido?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
Não necessariamente. A doutrina recusa tanto a imagem de um livro já escrito quanto a pretensão de ter provado que ele não existe. Totalidade pode designar tudo o que pertence a determinado domínio, sem que se tenha explicado como esse domínio se relaciona com o tempo. A expressão conjunto das existências, tomada isoladamente, não demonstra que cada acontecimento esteja fixado nem que permaneça aberto. Para obter uma dessas conclusões seriam necessárias premissas adicionais sobre o estatuto do futuro, da possibilidade e da ação.
Dizer já concluída introduz uma referência temporal: concluída em relação a quê e antes de qual acontecimento? Se a perspectiva considerada fosse extratemporal, o advérbio já poderia transportar indevidamente para ela a ordem que se pretendia ultrapassar. Mas retirar o advérbio também não resolve a dificuldade. Uma realidade completamente determinada, mesmo sem antes e depois, ainda suscitaria a pergunta sobre o lugar de escolhas que poderiam ter sido outras.
A doutrina não adota a simples imagem de um conjunto acabado como solução para a multiplicidade. Tampouco afirma que a liberdade prova que não existe totalidade alguma. Reconhece que a relação entre possibilidades abertas e realidade integral precisa ser examinada, e que seus fundamentos não a decidem. Essa reserva impede tanto o fatalismo apressado quanto a promessa igualmente apressada de uma liberdade metafísica já demonstrada. Nem o livro já escrito, nem a prova de que ele não existe.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Não. Falar do conjunto de todas as existências não diz, por si só, se cada escolha está fixada. ‘Tudo o que existe’ pode nomear um domínio sem explicar o futuro, as possibilidades ou a ação. Tirar a palavra ‘já’ de um conjunto pronto também não resolve a liberdade: ainda seria preciso entender o que significa uma escolha poder ser diferente.
Aprofundamento
O texto separa três questões frequentemente reunidas: quais existências pertencem ao conjunto, qual é sua relação com o tempo e em que sentido seus acontecimentos poderiam ser outros. Uma resposta à primeira não determina as demais. A expressão ‘totalidade’ não contém, por definição, uma teoria do futuro.
A crítica ao advérbio ‘já’ identifica um possível erro de linguagem: comparar uma perspectiva extratemporal com um momento anterior importaria a sucessão que se pretende dispensar. Mas o livro reconhece que essa correção verbal não basta. Mesmo sem anterioridade, uma realidade inteiramente determinada suscita o problema da possibilidade contrária. A resposta, portanto, não demonstra liberdade metafísica; impede uma conclusão fatalista que foi obtida sem as premissas necessárias. Para decidir mais, seria preciso uma teoria sobre determinação, possibilidade e autoria, tarefa que o capítulo 8 manterá aberta.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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