Unismo › O livro › Parte IV · Capítulo 9: O princípio criador
Questão 64 de 168
64.O fato de algo existir prova que há um criador?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
Não. O fato de algo existir permite perguntar por seu fundamento, mas a pergunta não seleciona, por si, uma resposta verdadeira. Para concluir necessariamente que há um criador seriam exigidas premissas adicionais sobre dependência, causalidade ou necessidade. Cada uma precisaria de justificação. Esta obra não apresenta esse percurso como concluído. Que a casa exista prova que alguém a construiu; que o universo exista não prova, sem mais, que há um construtor: a analogia é justamente o que está em disputa.
A razão para investigar um fundamento criador é que explicar como uma existência surge em determinadas condições pode deixar aberta a pergunta por sua dependência mais profunda. Um encadeamento de acontecimentos e um fundamento do ser não desempenham a mesma função conceitual. O conceito de criador oferece uma resposta à segunda pergunta; sua pertinência mostra o que ele procura esclarecer, sem demonstrar que essa resposta seja indispensável.
O adepto assume que as existências possuem esse fundamento transcendente e encontra nessa convicção uma forma de reconhecer sua dependência sem reduzir o real ao que controla ou conhece. A adesão pode ser examinada pelas razões que reúne, pelas dificuldades que cria e pela articulação com os demais fundamentos. Chamá-la religiosa identifica o caráter da adesão; não é uma prova em seu favor.
Permanecem alternativas: considerar as existências uma realidade última, admitir outra forma de dependência ou suspender o juízo. O livro não as refuta pela simples preferência por um criador. Sua posição é afirmativa e delimitada: professa esse princípio, esclarece sua função e reconhece que não dispõe de razões que obriguem todo interlocutor a reconhecê-lo.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Não, sozinha não prova. Para chegar a essa conclusão, um argumento precisa dizer quais características da existência exigiriam um fundamento, e por quê. A doutrina afirma o princípio criador e reconhece que esse compromisso não encerra a discussão filosófica.
Aprofundamento
A analogia com uma casa evidencia o problema. Reconhecemos casas como construções porque dispomos de experiência de casas, materiais e construtores. Não dispomos automaticamente de uma comparação equivalente entre universos construídos e não construídos. Para ampliar a inferência, seria preciso defender uma premissa própria sobre a realidade considerada em conjunto.
O reconhecimento dessa lacuna não mostra que todo argumento possível a favor de um criador fracasse. Mostra apenas que a conclusão não está pronta no fato de haver algo. Um leitor cético pode legitimamente pedir uma comparação entre dependência última, realidade sem fundamento ulterior e outras explicações. O adepto pode reconhecer nessa profissão uma orientação religiosa coerente com outros compromissos, mas coerência e orientação não equivalem a eliminação das alternativas. A questão é intelectualmente mais forte quando explicita esse encargo em vez de apresentar a dúvida como incapacidade de perceber o evidente.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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