Unismo › O livro › Parte V · Capítulo 12: A realidade do sofrimento e os limites de sua explicação
Questão 87 de 168
87.Quem aprende com a dor precisava dela?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
Não. A transformação posterior mostra, quando efetivamente ocorre, uma resposta construída diante de determinado acontecimento. Não demonstra que esse acontecimento fosse o único caminho para aprender, que devesse ter ocorrido ou que alguém possuísse o direito de produzi-lo. Confundir essas proposições converte a capacidade de resistir em justificativa daquilo a que se resistiu.
Quem sofreu abandono pode tornar-se especialmente atento à solidão alheia. Essa atenção é uma realização sua, possivelmente sustentada por outras pessoas; não é um mérito do abandono. Também poderia ter aprendido a cuidar mediante acolhimento, exemplo e reflexão. Não conhecemos todas as possibilidades que foram impedidas pelo dano.
A dificuldade é ainda maior quando não há transformação reconhecível. Algumas dores desorganizam projetos, reduzem possibilidades e consomem forças necessárias à reflexão. Seria acrescentar uma cobrança injusta exigir que toda pessoa ferida produzisse uma lição elevada para que sua experiência pudesse ser respeitada.
A doutrina afirma a participação das diversas experiências no aperfeiçoamento; isso não torna cada sofrimento instrumento indispensável do processo. Aquilo que alguém consegue fazer de uma adversidade não permite absolver quem a causou. Cabe honrar a elaboração da pessoa atingida e, ao mesmo tempo, trabalhar para que outras não precisem enfrentar o mesmo dano.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Não. Conseguir aprender depois de uma dor não significa que aquela dor fosse necessária, justa ou permitida. No exemplo do abandono, o cuidado que a pessoa desenvolveu pertence à resposta dela ao que sofreu; não transforma o abandono num favor. E quem não consegue tirar nenhuma lição de uma dor conserva o mesmo direito à consideração.
Aprofundamento
O argumento separa quatro afirmações: houve sofrimento; depois ocorreu aprendizagem; a aprendizagem dependeu daquele sofrimento; seria correto produzir o sofrimento para obtê-la. A segunda não estabelece sozinha a terceira, pois o texto admite outros caminhos de formação. Mesmo que uma dependência causal particular fosse demonstrada, ainda faltaria justificar a quarta: um benefício pode resultar de um ato sem conferir ao agente o direito de praticá-lo.
A objeção mais relevante vem do próprio núcleo doutrinário: se as experiências participam do aperfeiçoamento, por que excluir a dor dessa participação? A resposta autorizada não a exclui. Distingue participar de um processo, ser condição indispensável desse processo e estar moralmente justificada. O que se compreende a partir de uma violência pode integrar uma aprendizagem cuja conclusão é precisamente que a violência não deveria ter ocorrido, como estabelece a questão 42.
Permanece a dificuldade de relacionar a orientação global professada a experiências que destroem possibilidades sem produzir aprendizagem reconhecível. Como esclarece a questão 75, o livro não garante que cada experiência seja incorporada sem perda a um resultado bom; por isso, não cabe pressupor uma utilidade oculta para cada dor. A questão é explicar em que consiste a direção real do conjunto, admitidas essas perdas, e o que sustenta essa interpretação diante delas. A lacuna continua séria sem se tornar uma cobrança de crescimento à vítima. Sua dignidade independe da produtividade moral do que viveu. Ela pode narrar um sentido encontrado, mas terceiros não podem universalizá-lo nem concluir que uma trajetória menos dolorosa teria sido pior.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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