Livro do Amor e da Consciência · pergunta 138

Como conservar a esperança sem exigir que todas as perguntas se encerrem?

A esperança pode existir como confiança orientadora sem possuir respostas para todas as perguntas. Na vida comum, amamos pessoas cujo futuro desconhecemos, assumimos compromissos sem controlar seus efeitos e continuamos a cuidar mesmo quando não sabemos quanto tempo teremos. A abertura do futuro não torna esses gestos vazios. Ela faz parte da condição em que escolhemos viver.

Na fé deste caminho, a esperança se apoia no Amor de Deus e na continuidade da pessoa além da morte. Essa confiança oferece um horizonte, mas não descreve cada etapa da existência nem explica por que uma dor específica aconteceu. Podemos reconhecer esse limite sem retirar toda força do que afirmamos. Saber que uma relação possui valor não equivale a conhecer todos os seus acontecimentos; confiar em Deus não significa possuir uma descrição completa de Seus Desígnios.

Há perguntas que permanecem especialmente difíceis: por que tanto sofrimento é possível, como a consciência se relaciona com o corpo, de que modo a identidade continua, o que acontece com vínculos interrompidos. A seriedade dessas questões não diminui porque escolhemos esperar. Elas merecem investigação, diálogo e espaço de silêncio. A esperança perde profundidade quando só consegue sobreviver fazendo essas perguntas parecerem pequenas.

Também pode haver dias em que a confiança religiosa não é sentida. Neles, a pessoa talvez encontre apoio numa relação, numa responsabilidade modesta ou numa possibilidade imediata de cuidado. Isso não precisa ser tratado como queda para uma vida inferior. O amor pode sustentar a pessoa por caminhos que ela ainda não consegue nomear espiritualmente. A comunidade acompanha melhor quando reconhece esses apoios e não exige uma interpretação única do alívio recebido.

A esperança amadurece ao distinguir abertura de garantia. Podemos esperar reencontro sem prometer data, desejar transformação sem prever a escolha de alguém e confiar na Presença de Deus sem exigir um sinal. Essa forma de esperar conserva a ternura e reduz a pretensão de controlar. Permite que o futuro seja recebido como encontro, e não apenas como cumprimento de um roteiro que elaboramos para suportar o presente.

Não precisamos, portanto, encerrar todas as perguntas antes de oferecer companhia, fazer uma reparação ou receber um dia de alegria. A vida pode continuar enquanto pensamos. Algumas respostas talvez se tornem mais claras; outras permanecerão além de nosso alcance. O que importa é que a falta de conclusão não nos torne indiferentes ao que já conseguimos reconhecer.

Ao conservar esperança, oferecemos à existência uma disponibilidade: ainda há valor a descobrir, relações a cuidar e compreensão a alcançar. Essa disponibilidade pode ser firme ou pequena, luminosa ou cansada. Seu sentido não está em negar a dificuldade, mas em impedir que ela tenha a última palavra sobre toda possibilidade de amor. Podemos seguir com perguntas e, ainda assim, estar verdadeiramente presentes.

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