Livro do Amor e da Consciência · pergunta 020

O que a proximidade de Jesus com as pessoas ensina sobre Deus?

Ensina a reconhecer uma Presença que alcança a vida particular. Na narrativa de Bartimeu, em Marcos 10,46–52, um homem cego chama por Jesus enquanto muitas pessoas procuram silenciá-lo. Jesus interrompe o caminho, manda chamá-lo e pergunta o que ele deseja. O relato apresenta depois a recuperação da visão. Para nossa reflexão, merece atenção a forma do encontro: a pessoa que era tratada como ruído na passagem da multidão torna-se interlocutora. Seu pedido pode ocupar o centro da atenção.

A proximidade possui aqui uma dimensão de conhecimento. Podemos estar fisicamente perto e continuar sem ouvir alguém, porque já o classificamos ou decidimos por ele o que importa. Quando uma pessoa é reconhecida como interlocutora, sua experiência pode participar da compreensão do encontro. O cuidado deixa de consistir apenas numa ação executada sobre uma necessidade e inclui uma resposta àquele que a vive. Essa diferença é importante mesmo quando a necessidade parece evidente: o modo de receber ajuda também pertence à vida de quem a recebe.

Lemos nessa direção uma aproximação ao sentido do Amor de Deus. A pessoa é alcançada como alguém, com história, desejo e capacidade de resposta. Sua condição não a torna um caso indiferenciado. Podemos compreender a Intimidade com que Deus conhece cada vida sem reduzi-la àquilo que vemos. O exemplo de Jesus oferece linguagem concreta para essa convicção: a Grandeza da Presença Divina é compatível com a atenção ao particular. Aquilo que parece pequeno para a multidão pode continuar sendo decisivo para quem vive.

O relato de cura exige também discernimento. Seria injusto convertê-lo numa promessa de que toda pessoa suficientemente confiante obterá o mesmo desfecho corporal. O episódio possui seu lugar na narrativa evangélica; nossa responsabilidade é compreender o que seu sentido pede na relação presente. Quem adoece continua merecendo atenção, cuidado competente e companhia, qualquer que seja o resultado alcançado. O valor do encontro não deve depender de uma transformação extraordinária para que possamos reconhecer que a pessoa foi recebida com amor.

Essa leitura pode enfrentar uma objeção: se a aproximação humana serve para falar de Deus, não estaríamos confundindo Deus com o cuidado que conseguimos oferecer? A distinção permanece. Uma ação humana pode expressar o bem em que a fé confia, mas não esgota a Realidade Divina nem transforma seu autor em representante infalível. Justamente por isso, o cuidado pode ser examinado. Quem diz agir em Nome de Deus precisa continuar ouvindo a pessoa alcançada por seu gesto.

A proximidade de Jesus nos conduz, assim, a uma confiança que possui consequências. Podemos dirigir a Deus nossa experiência particular sem pensar que ela é pequena demais para Sua Presença. E podemos aprender a conceder essa mesma seriedade às experiências que chegam até nós. Uma pergunta feita com atenção, um tempo oferecido e uma escuta que admite ser corrigida tornam visível algo dessa orientação. O amor começa a ser compreendido quando a vida do outro encontra espaço real em nossa atenção.

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