Livro do Amor e da Consciência · pergunta 024

Como o amor ao próximo transforma nossa maneira de procurar Deus?

Transforma a busca porque torna inseparáveis a confiança em Deus e a atenção à vida amada por Ele. Podemos procurar uma experiência de proximidade espiritual e, ao mesmo tempo, permanecer distraídos diante de uma necessidade humana. O amor ao próximo questiona essa separação. Se Deus é reconhecido como Fonte Amorosa, a relação com Ele deve ampliar nossa capacidade de considerar o bem de quem existe. A oração e a reflexão ganham uma abertura concreta: o próximo pode apresentar uma realidade que nossa busca, concentrada em si mesma, ainda não percebeu.

Na parábola do samaritano, em Lucas 10,25–37, Jesus responde a uma pergunta sobre o próximo apresentando um homem ferido no caminho. Alguns passam adiante; um samaritano se aproxima, trata suas feridas e providencia cuidado. A questão se desloca para quem se fez próximo por sua ação. A narrativa permite compreender que proximidade é também uma tarefa: pode nascer da disposição de responder à realidade de alguém, mesmo quando um vínculo anterior não nos reuniu.

Essa perspectiva modifica o conhecimento religioso. A pessoa necessitada deixa de aparecer apenas como ocasião para exercermos uma virtude e passa a ser interlocutora de nossa compreensão. Seu pedido pode revelar que nossa generosidade estava mal orientada; sua recusa pode mostrar que confundíamos auxílio e domínio; sua experiência pode tornar concreta uma palavra que usávamos de modo abstrato. O amor a Deus se aprofunda quando aceita essa aprendizagem. A consciência passa a conhecer melhor o sentido de cuidado, porque permite que uma vida real participe de sua definição.

Isso não reduz Deus à humanidade nem faz de toda atividade uma oração indistinta. A relação com Ele conserva sua própria profundidade: confiança, gratidão, busca de sentido, presença e recolhimento. O cuidado com o próximo e a vida interior podem alimentar-se mutuamente. O silêncio ajuda a perceber motivações que a pressa ocultava; o encontro impede que o silêncio se torne apenas proteção contra as exigências da vida. Há ritmos diferentes, mas uma mesma direção pode reuni-los: aprender a amar com maior verdade.

Também é possível cuidar e permanecer distante da linguagem religiosa. O bem realizado conserva seu valor. Reconhecê-lo protege a própria busca por Deus de uma pretensão de monopólio. A caridade pode ensinar-nos por meio de pessoas que não compartilham nossas convicções, e recebê-la com gratidão é coerente com o horizonte que professamos. Uma fé centrada no Amor precisa conseguir perceber o bem onde ele efetivamente acontece, inclusive quando sua presença contraria nossas expectativas sobre quem o ofereceria.

Procurar Deus passa, então, a incluir uma disponibilidade para ser transformado pelo encontro. A pergunta espiritual deixa de se limitar à tranquilidade que alcançamos e passa a considerar a qualidade da presença que oferecemos. Podemos dirigir-Lhe nossas necessidades e aprender a ouvir as necessidades que chegam a nós. A comunhão toma forma nesse movimento: a confiança no Criador abre a atenção para a criatura, e o cuidado com a criatura aprofunda a compreensão do Amor em que confiamos.

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