Livro do Amor e da Consciência · pergunta 004
É possível receber a própria vida sem ter de justificá-la?
Receber a própria vida é reconhecer que ela chegou antes de qualquer argumento que pudéssemos oferecer em seu favor. Ninguém foi consultado sobre as condições iniciais de existir. Encontramo-nos vivendo, ligados a um corpo, a uma época e a relações cuja formação nos antecedeu. A liberdade começa dentro dessa realidade recebida. Pode transformá-la em parte, interpretá-la e responder a ela; não precisa assumir a tarefa impossível de demonstrar que mereceu nascer. A existência precede o tribunal que às vezes instalamos dentro de nós.
A afirmação de que a vida é um Dom de Deus pode favorecer essa acolhida, desde que compreendamos o sentido de um Dom. A gratuidade é incompatível com uma cobrança escondida que convertesse cada dia em pagamento. Deus nos chama a amar porque o amor realiza uma possibilidade preciosa da vida, e não porque Sua Generosidade precise ser reembolsada. Nossa resposta tem importância: alcança outras pessoas, forma nossa consciência e pode aprofundar a relação com Ele. O valor da resposta nasce dessa realidade, não de uma dívida por existir.
Receber a vida também não exige aprovar tudo o que a marcou. Alguém pode reconhecer o valor de estar vivo e lamentar profundamente as circunstâncias em que cresceu. Pode agradecer um encontro e protestar contra uma injustiça. A gratidão se torna mais verdadeira quando pode escolher seu objeto, em vez de encobrir uma história inteira com uma palavra. Aquilo que feriu merece ser reconhecido como ferida. A acolhida da própria existência inclui o direito de desejar que certas coisas tivessem acontecido de outro modo.
Há ainda quem pense que aceitar a si mesmo produziria acomodação. Isso seria verdade se acolhida significasse aprovação integral de cada atitude. Podemos, porém, distinguir o chão e o caminho. A dignidade oferece um chão a partir do qual a mudança se torna possível; a conduta permanece um caminho sujeito a exame. Uma pessoa que consegue reconhecer sua humanidade pode enfrentar um erro com mais precisão, porque já não precisa escolher entre negá-lo e condenar toda a própria vida. A responsabilidade ganha espaço onde o valor pessoal deixa de estar em disputa.
Essa compreensão se torna concreta em pequenos modos de tratar-se. O repouso pode ser recebido como uma necessidade da vida, sem a obrigação de demonstrar exaustão extrema. Um prazer simples pode ser vivido com alegria, sem servir de prêmio por uma semana impecável. Pedir ajuda pode expressar confiança em relações, em vez de anunciar fracasso. Esses gestos não resolvem todas as dificuldades de acolher-se, mas dão forma a uma verdade: a pessoa que somos também está incluída entre as vidas confiadas ao nosso cuidado.
A acolhida pode amadurecer lentamente. Há dias em que a própria história parece estranha e a gratidão permanece distante. A fé não exige fabricar um sentimento para ser acolhido pelo Amor de Deus. Podemos começar por tratar nossa vida com o respeito que ofereceríamos a alguém cansado. Ao longo desse aprendizado, receber a existência deixa de significar considerá-la perfeita. Significa permitir que ela tenha valor suficiente para ser cuidada, compreendida e transformada, mesmo antes de sabermos explicar por que estamos aqui.
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