Unismo › O livro › Parte IV · Capítulo 9: O princípio criador
Questão 62 de 168
62.O que “criação” quer dizer aqui?
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Narração da pergunta e da resposta. No leitor completo a narração segue de questão em questão.
A obra adota provisoriamente o sentido de dependência ontológica: as existências humanas dependem do princípio criador quanto ao seu ser, e não somente quanto à data de seu aparecimento. “Ontológica” significa aqui relativa ao existir. Essa interpretação permite pensar a criação sem decidir previamente se a realidade considerada teve um primeiro instante.
Uma realidade sem começo temporal ainda poderia, nessa interpretação, depender de um fundamento. Inversamente, estabelecer um começo não esclareceria, por si, de que natureza seria aquilo de que ela depende. A utilidade da distinção está em separar duas investigações que a palavra “origem” costuma reunir: quando algo começou e em virtude de quê existe. A combustão de uma chama depende do oxigênio a cada instante, e não apenas no instante da ignição; a comparação ilustra a diferença entre as duas perguntas, sem decidir qual é a forma da dependência afirmada pela doutrina.
A interpretação conserva um conteúdo definido: as existências não são absolutamente independentes em seu ser. Permanecem abertas a forma da dependência e sua eventual relação com um ato de vontade. Produção a partir do nada, organização de uma realidade preexistente e sustentação contínua são concepções adicionais; nenhuma delas resulta apenas do uso de “criação”. O livro tampouco estende automaticamente a relação ao próprio criador, como se já tivesse afirmado a origem ou o autofundamento dele.
A doutrina não afirma que algo tenha surgido do nada. A experiência humana só conhece transformações, e a física formula esse limite como conservação: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Se criar significasse produzir do nada num instante, então, nesse sentido, nada foi criado. O que a doutrina afirma é outra coisa: que as existências não se sustentam por si mesmas. Dependência não é começo. Criação diz de que dependemos, não quando começamos.
Comentário da edição de estudo
Em linguagem clara
Aqui, criar quer dizer principalmente fundamentar a existência de algo. Um começo ocorrido muito antes de nós seria uma questão de tempo; a dependência de uma existência em relação ao criador é outra questão. O texto permite pensar a segunda mesmo sem decidir se houve um primeiro instante. O parágrafo final da resposta, porém, tira das leis de conservação uma conclusão mais forte do que elas sustentam.
Aprofundamento
O exemplo da chama ajuda a compreender uma dependência que continua enquanto algo existe: a relação relevante não precisa ser apenas um acontecimento passado. Contudo, oxigênio e combustão são condições físicas de um processo físico. O exemplo esclarece a diferença entre dependência atual e começo anterior; não demonstra uma relação metafísica entre todas as existências e um criador. Tampouco estabelece que o criador seja uma condição do mesmo tipo que o oxigênio.
O problema principal está na passagem de ‘conhecemos transformações’ para ‘nada foi criado’, caso criar signifique produzir a partir do nada. Uma descrição do que se conserva em determinados processos físicos não resolve a questão da origem ou da dependência do domínio no qual esses processos ocorrem. Para excluir uma criação desse tipo, seria necessário justificar a aplicação da regra à própria existência da realidade física, e não apenas a suas transformações. A frase familiar sobre conservação tampouco funciona, por si, como formulação completa de todas as leis físicas.
Existe aqui uma tensão interna verificável: a nota original referente à questão 62 reconhece que as leis de conservação não decidem a dependência metafísica do próprio universo. Essa delimitação é mais rigorosa que a conclusão categórica do último parágrafo. A presente edição conserva ambas as passagens e assinala o desacordo; não as torna artificialmente equivalentes. O desenvolvimento anterior da resposta permanece útil: ‘criação como dependência’ é uma interpretação compreensível, mas não ganha prova empírica pela conservação nem refuta, desse modo, interpretações rivais.
Acréscimo editorial da Edição Comentada para Estudo; não representa chancela oficial nem substitui o texto. As referências [E1]–[E11] remetem às fontes listadas na edição completa.
Do livro
A Unidade e a Dignidade da Existência — Livro dos Fundamentos: 168 perguntas respondidas, gratuito, sem indicação de autor, livre para copiar e traduzir (CC BY-NC-SA 4.0).
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