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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Conclusão

Uma Raiz, Muitas Vidas

Conclusão

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Verificando a narração…

Trechos

    O Livro dos Fundamentos começa por uma raiz e chega, na questão 164, a alguém diante de nós. Entre os dois pontos há um percurso que este livro tentou refazer com outros instrumentos, e que se pode resumir numa frase que o texto-base escreveu na quinta resposta e que esta investigação usou como fio: “A unidade diz de onde viemos; a dignidade diz como devemos tratar quem está aqui.”

    O que a investigação encontrou pode ser dito em três movimentos.

    O primeiro é o da unidade. O Unismo afirma que há uma só realidade consciente sob todas as vidas humanas, e afirma-o com um conteúdo determinado, distinguível das concepções que recusa. A afirmação é coerente no plano lógico, porque a unidade é do fundamento e a pluralidade é dos sujeitos, e porque a manifestação não é identidade. É incompleta no plano metafísico, porque a relação de manifestação continua por explicar, e a doutrina o reconhece expressamente, como o fazem, à sua maneira, as filosofias da unidade com que o capítulo 24 a comparou. Esta investigação propôs ler a consciência fundamental como uma natureza e os sujeitos como as suas formas delimitadas; a leitura torna a tese pensável e deixa a dívida onde estava. O Unismo tem aí uma dívida, e a sabe, e não a pagou com moeda falsa.

    O segundo é o das muitas vidas. Tudo o que a doutrina diz sobre a pessoa, o outro, a memória, o tempo, a morte, a liberdade e o sofrimento tem uma só direção: impedir que a unidade seja usada contra alguém. A pessoa é real, situada e singular; o outro não se adivinha; a memória não se transfere; as existências não formam fila; o fundamento permanece, mas a pessoa é outra pergunta; a liberdade é prática antes de ser metafísica; a culpa não é de todos; nenhum sofrimento é meio, prova, pagamento ou lição exigida. Esta investigação chamou a esse conjunto de tese de baixa interferência, e viu nele, ao mesmo tempo, a fraqueza explicativa da doutrina e a sua força como orientação de vida: nada do que o Unismo pede depende de o Unismo ser verdadeiro. E viu uma inversão que considera o achado mais importante do exame: no Unismo, a unidade não é o ponto de partida de que se deduz o outro; é o que se aprende ao não conseguir atravessá-lo.

    O terceiro é o de cada uma ser de alguém. A moral do Unismo nasce da dignidade e recebe da unidade sentido e motivo. Esta investigação a enunciou em dez princípios e seis regras de conflito, a levou a quinze casos difíceis e a comparou com algumas éticas conhecidas; encontrou uma ética da responsabilidade sem merecimento, uma justiça sem retribuição, um perdão que nunca é dever, uma consideração que se estende por círculos de razões, e uma comunidade que, no seu texto fundador, já limita os seus futuros dirigentes. E encontrou uma religião: de relação e não de instituição, de profissão e não de demonstração, desarmada por decisão própria, que contempla sem conhecer a natureza do que contempla, ora sem saber se é ouvida, espera sem descrição do horizonte e acompanha sem prometer. É uma religião que consola pela presença e pela verdade do vivido, e não pela promessa, e que paga o preço dessa escolha diante de cada leito e de cada velório.

    Da unidade à dignidade, portanto, não há dedução, ao menos não da unidade sozinha (questão 5); há uma articulação, e é ela que faz do Unismo o que é. Quem a desfizer num dos sentidos terá uma metafísica sem proteção; quem a desfizer no outro terá uma ética sem raiz. A doutrina sustenta as duas e diz, na questão 12, que abandonar qualquer delas seria mudar de doutrina. Esta investigação não lhe pede que mude. Pede-lhe o que ela pede a si mesma: que conserve à vista a insuficiência das suas razões, que continue a formular contra si a objeção mais forte, que não deixe a sua linguagem tornar fácil nenhum abuso, e que lembre, em cada comunidade que a venha a viver, que a pergunta é sempre permitida.

    O que fica, para quem fecha este livro, é o mesmo que fica para quem fecha o outro. Há perguntas que continuam abertas, e há cuidado que já pode ser oferecido. Uma raiz; muitas vidas; e cada uma é de alguém, que continua diante de nós.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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