Livro do Amor e da Consciência · pergunta 049
Como continuar falando do Amor de Deus diante do sofrimento inocente?
Comecemos pela dificuldade em toda a sua força. Se Deus é Amoroso, a existência de sofrimentos que atingem quem nada fez para provocá-los parece contrariar o que afirmamos sobre Ele. A objeção se torna ainda mais grave quando a dor impede uma criança de crescer ou deixa alguém sem recursos para compreender o próprio sofrimento. Chamar isso de mistério pode reconhecer um limite; pronunciado depressa, porém, pode também esconder uma recusa de pensar.
A primeira exigência é conservar o significado do amor. Entre pessoas, reconhecemos o amor no cuidado com o bem de alguém e na resistência ao que o destrói. Atribuir a Deus uma Bondade que transformasse qualquer crueldade em bem tornaria essa palavra irreconhecível. Por isso, o sofrimento inocente deve continuar sendo uma razão para buscar alívio, proteção e justiça. A confiança em Deus não nos obriga a elogiar o acontecimento que feriu nem a imaginar uma culpa secreta em quem o sofreu.
Essa exigência deixa uma pergunta aberta: por que a Fonte Amorosa permite uma realidade em que tais acontecimentos são possíveis? Não possuímos uma resposta que elimine essa tensão. Algumas condições da vida ajudam a compreender sua vulnerabilidade, como a existência corporal e a liberdade de pessoas capazes de ferir. Elas não explicam por que cada sofrimento particular ocorreu nem demonstram que sua intensidade era necessária. Admitir essa insuficiência é parte da honestidade de quem crê.
Continuamos a falar do Amor de Deus porque nossa convicção sobre Ele não nasce da ideia de que tudo vai bem. Ela nasce do reconhecimento de que cada pessoa merece um bem que seu destino terreno frequentemente não realiza, e da confiança de que a Fonte da vida permanece comprometida com essa pessoa.
Essa é uma interpretação religiosa da existência, não uma dedução obrigatória para qualquer observador. Sua seriedade aparece também na disposição de ouvir quem, diante da mesma dor, perdeu a capacidade de confiar.
Jesus orienta essa confiança ao aproximar o olhar de quem sofre. Seu exemplo impede que a discussão sobre Deus ocupe todo o lugar da pessoa concreta. Diante de alguém ferido, a pergunta filosófica conserva importância, mas compartilhar o peso daquela hora já é uma resposta moral possível. Organizar ajuda, escutar um protesto ou permanecer junto de quem espera não resolve a origem do mal. Torna menos completo o abandono que o mal poderia produzir.
Falar do Amor de Deus exige, assim, uma linguagem proporcional ao que sabemos e ao que esperamos. Podemos afirmar que a vítima conserva valor, que seu sofrimento não mede o Amor recebido e que sua existência não se encerra no dano sofrido. Podemos confiar que Deus a sustenta para além do que conseguimos acompanhar. Devemos deixar aberta a ferida intelectual de não compreender tudo. A fé conserva sua dignidade quando oferece essa esperança sem exigir que a pessoa ferida a reconheça imediatamente como suficiente.
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