Livro do Amor e da Consciência · pergunta 053
Como atravessar a experiência do Silêncio de Deus?
Há momentos em que a oração continua, mas a confiança deixa de ser sentida. A pessoa fala, espera e encontra apenas o curso habitual dos acontecimentos. O Silêncio de Deus nomeia essa experiência de não reconhecer uma resposta. Ela pode ser especialmente dolorosa quando alguém havia ligado sua fé à sensação de estar acompanhado. Além do sofrimento inicial, surge então uma segunda pergunta: se nada percebo, terei sido abandonado ou terei perdido a capacidade de encontrar Deus? A experiência merece ser acolhida antes de ser interpretada. Não perceber a Presença de Deus e demonstrar que a relação com Ele terminou são coisas diferentes, assim como sentir consolo não fornece acesso completo à Realidade Divina. Essa distinção não serve para corrigir friamente quem sofre. Ela abre uma possibilidade: o estado interior desta hora talvez não seja a medida inteira da relação com Deus. Uma relação pode atravessar períodos em que suas expressões habituais se tornam inacessíveis, embora isso não torne a dificuldade pequena.
O Silêncio também pode revelar a insuficiência de uma expectativa. Às vezes esperamos uma indicação inequívoca, um resultado específico ou uma paz que nos permita continuar. A vida não oferece essas respostas da maneira desejada. Examinar a expectativa pode ajudar, desde que o exame não se transforme em acusação. Pedir alívio para alguém amado é compreensível. A ausência do alívio não prova que o pedido foi egoísta, que faltou fé ou que a pessoa recebeu aquilo de que precisava secretamente.
Atravessar esse período pode exigir outras formas de presença. Uma conversa honesta, a companhia silenciosa de alguém, o cuidado do corpo e a redução de exigências permitem que a vida seja sustentada sem que tudo dependa de produzir uma experiência religiosa. Há quem continue orando por meio de perguntas; há quem precise deixar as palavras descansar. O vínculo com Deus não se torna mais verdadeiro pela quantidade de frases que conseguimos pronunciar quando estamos exaustos.
Jesus oferece uma orientação importante ao permitir que a relação com Deus inclua angústia e entrega, em vez de exigir uma serenidade encenada. Segui-lo pode significar levar nossa verdade à Presença do Pai, inclusive quando essa verdade contém protesto. A fé amadurece quando deixa de confundir confiança com controle dos próprios sentimentos. Podemos desejar confiar e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda não encontramos chão para essa confiança em determinada parte de nossa história.
Não sabemos estabelecer um prazo para o fim dessa experiência. Às vezes a pessoa volta a perceber Deus de maneira diferente; às vezes permanece com perguntas que acompanham toda a vida. O Amor Divino, nesta fé, não oscila conforme a nitidez de nossa percepção. Podemos confiar que Ele continua voltado para nós, enquanto outras pessoas tornam o cuidado sensível no presente. A tarefa de quem acompanha é suportar a ausência de respostas fáceis e ajudar a preservar uma vida que continua merecendo atenção.
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