Livro do Amor e da Consciência · pergunta 051
Que diferença existe entre Deus sustentar a vida e querer tudo o que acontece?
Algo existir e algo ser desejável são afirmações diferentes. Reconhecer Deus como Fonte Criadora significa que a vida depende dEle em sua existência mais profunda. Afirmar que Ele deseja cada acontecimento acrescentaria outra ideia: toda ação, inclusive a mais cruel, expressaria positivamente Sua Intenção. Essa passagem precisa ser examinada. A dependência da criatura em relação ao Criador não transforma todos os usos de suas capacidades em cumprimento do Amor Divino.
Podemos perceber parcialmente essa distinção em relações humanas, embora nenhuma comparação descreva Deus por inteiro. Uma comunidade oferece linguagem, educação e condições para que alguém aja. Essa pessoa pode empregar o que recebeu para enganar ou ferir, sem que a comunidade tenha desejado tal uso. O exemplo mostra apenas que tornar uma ação possível e aprovar seu conteúdo são relações distintas. Em Deus, a pergunta se aprofunda porque falamos da própria Fonte da existência, e não de uma causa entre outras.
Sustentar uma pessoa significa, nesta fé, conservar seu valor e sua possibilidade de relação, inclusive quando ela usa mal sua liberdade. Se Deus retirasse a existência de quem erra, o Amor ficaria condicionado à conduta e o amadurecimento seria substituído pela eliminação. A permanência de alguém, porém, tampouco concede um direito de continuar ferindo. É possível desejar o bem do agressor e, justamente por isso, impedir sua ação, exigir reparação e proteger aqueles que estão ao seu alcance.
A objeção permanece: se Deus sustenta tudo o que existe, por que não impede apenas os atos destrutivos, preservando seus autores? Não sabemos explicar integralmente a relação entre Sua Ação e a ordem do mundo. O reconhecimento desse limite deve impedir duas certezas excessivas: a de que todo fato foi por Ele desejado e a de que conhecemos exatamente quando ou como Ele intervém. Uma filosofia religiosa pode distinguir os conceitos com clareza sem afirmar que resolveu o funcionamento da realidade.
Essa distinção muda nossa leitura dos acontecimentos cotidianos. Uma demissão injusta, uma doença ou uma ruptura não devem ser imediatamente traduzidas como Mensagem Divina. Investigar causas, defender direitos e procurar cuidado são maneiras de levar a experiência a sério. A pessoa pode buscar Deus dentro dessa história sem atribuir a Ele cada decisão que outras pessoas tomaram. Assim se preservam a responsabilidade humana e a liberdade de contestar situações que produzem sofrimento.
O que afirmamos positivamente é que a Presença Criadora não se esgota nos acontecimentos que conseguimos observar. Deus permanece a Fonte Amorosa de pessoas cuja história contém decisões boas, danos e possibilidades ainda abertas. Sua Fidelidade permite pensar que a existência conserva futuro mesmo quando suas condições atuais se tornam dolorosas. Confiar nEle significa procurar como responder à vida à luz do amor, não tentar decifrar em cada golpe uma ordem que deveríamos aceitar. A Criação é recebida como Dom; nossas ações continuam precisando de discernimento.
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