Livro do Amor e da Consciência · pergunta 050

O mal precisa ter uma finalidade para que a vida conserve sentido?

Quando uma tragédia interrompe nossa história, procuramos uma finalidade porque ela parece tornar o acontecimento suportável. Se houve uma razão, pensamos, talvez a vida ainda forme um conjunto compreensível. Essa busca nasce de uma necessidade humana legítima: desejamos que nossa experiência tenha continuidade e que aquilo que amamos não fique entregue ao absurdo. Mas a necessidade de sentido pode conduzir a uma confusão entre encontrar uma maneira de viver depois do mal e afirmar que o mal precisava acontecer.

Uma finalidade é aquilo em vista do qual se realiza uma ação. Quando alguém constrói uma casa, organiza meios para oferecer abrigo. Se aplicamos essa estrutura a toda dor, passamos a imaginar pessoas feridas como meios de algum resultado superior. A dificuldade moral aparece logo: quem autorizou que aquela vida pagasse o preço? Um benefício posterior pode ser real e precioso sem converter a ferida que o antecedeu em Instrumento legítimo de Deus.

Também há diferença entre explicação e finalidade. Podemos descobrir por que um acidente aconteceu, identificar negligências e corrigir suas causas. Isso oferece conhecimento importante, embora não revele um propósito oculto. A vida conserva sentido porque nela existem pessoas, vínculos e possibilidades que merecem nossa resposta. Esses bens não precisam depender de que cada acontecimento tenha sido planejado para realizá-los. Uma história pode conter acontecimentos injustificáveis e, ainda assim, abrigar relações que justificam continuar cuidando.

Alguém poderá objetar que, sem um propósito para a tragédia, resta apenas uma perda inútil. A expressão revela o tamanho da dor, mas exige cuidado. Uma perda pode ser irreparável em certas dimensões; reconhecer isso permite honrar aquilo que desapareceu. Obrigar a pessoa a descobrir uma utilidade acrescenta outra exigência à experiência de ter perdido. O sentido pode surgir em uma direção diferente: na maneira de proteger outra vida, na liberdade de recordar, no reencontro gradual com coisas que continuam tendo valor.

Pensemos em quem, depois de uma violência, participa da criação de um espaço de acolhimento. O cuidado que agora oferece merece reconhecimento. Sua existência não prova que a violência foi necessária, nem cria obrigação semelhante para todas as vítimas. A pessoa poderia ter desenvolvido generosidade por caminhos menos dolorosos. O bem posterior testemunha a liberdade e o apoio que lhe permitiram responder; atribuí-lo integralmente à ferida retiraria dela e de seus companheiros uma parte de sua autoria. Confiamos que o Amor de Deus pode acompanhar a reconstrução de sentido em uma história atingida pelo mal. Isso nos permite esperar que nenhum sofrimento seja capaz de tornar a pessoa definitivamente sem futuro. Essa esperança não fornece uma justificativa retroativa para cada acontecimento. A vida vale mais do que a função que suas dores poderiam desempenhar. Seu sentido pode continuar se formando porque alguém permanece ali, digno de amor, capaz de receber cuidado e de participar de bens que a violência não criou.

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