Livro do Amor e da Consciência · pergunta 010
O que significa ser criado e continuamente sustentado por Deus?
Significa que a relação com Deus pertence ao presente de nossa existência. A Criação não é pensada apenas como um acontecimento depois do qual o Criador teria deixado uma realidade entregue inteiramente a si. Ser sustentado por Ele é existir numa dependência fundamental que atravessa o tempo. O que somos possui realidade própria, e essa realidade é recebida. As duas afirmações se completam: a vida é de alguém, embora esse alguém não seja a origem absoluta de seu próprio ser.
Nossa experiência conhece dependências que diminuem a liberdade, mas conhece também relações que a tornam possível. Aprendemos a falar porque recebemos linguagem; desenvolvemos capacidades porque encontramos condições de vida. Essas aproximações ajudam a perceber que receber pode constituir, em vez de anular, uma autonomia. A Relação Criadora é mais profunda do que esses exemplos, pois diz respeito à existência inteira. Ainda assim, eles esclarecem por que depender de uma Fonte não obriga a tratar a pessoa como simples aparência de uma ação alheia.
A fé afirma que Deus sustenta seres capazes de experiência e resposta. Há muitas pessoas, cada qual com uma história, e há relações reais entre elas. A comunhão nasce dessa pluralidade. Se tudo fosse apenas uma única consciência disfarçada, o encontro perderia o sentido de acolher alguém diferente de nós. O Amor Criador concede realidade à distinção: cada vida importa como vida própria, e sua relação com Deus não a transforma em parcela substituível de uma totalidade.
Surge então uma pergunta difícil: sustentar uma pessoa seria também querer cada ato que ela pratica? É necessário distinguir a existência de um agente e a orientação de sua conduta. Uma vida sustentada por Deus pode agir de modos que ferem outras vidas igualmente amadas. Essa distinção conserva a responsabilidade, embora não resolva sozinha o problema de como a liberdade e o mal se relacionam com o Poder Divino. A dificuldade merece pensamento; a violência merece resposta concreta enquanto pensamos.
Ser sustentado também não equivale a receber proteção visível contra toda perda. A condição corporal contém vulnerabilidade e relações cujos efeitos podem atingir profundamente alguém. A fé no Amor de Deus permanece em meio a essa condição e afirma que a morte não extingue a própria consciência. Seu conteúdo é mais amplo do que garantir a continuidade de cada circunstância atual. Uma mudança dolorosa pode romper formas de viver sem transformar a pessoa em existência abandonada pelo Criador.
Na vida cotidiana, essa compreensão pode aliviar a exigência de ser suficiente para tudo. Precisar de alimento, repouso, companhia ou ajuda pertence ao modo como vivemos. A confiança em Deus pode tornar mais livre a aceitação dessas necessidades, porque o valor pessoal não depende de uma independência impossível. Receber cuidado é participar de relações em que a vida se sustenta também de maneira concreta.
Ao mesmo tempo, a existência recebida convida à resposta. Somos capazes de favorecer ou dificultar a vida de outros, e essa participação tem importância própria. A gratidão amadurece quando percebe o bem recebido e procura torná-lo fecundo. Deus sustenta a pessoa para que ela exista como alguém; a caridade acolhe essa existência e ajuda a construir as condições nas quais sua liberdade pode florescer.
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