Livro do Amor e da Consciência · pergunta 011
Como o Amor de Deus pode alcançar cada pessoa sem fazer preferidos?
O Amor de Deus alcança cada pessoa em sua singularidade, sem distribuí-la numa escala de valor. Amar igualmente não significa dirigir uma atenção indistinta a seres intercambiáveis. Significa reconhecer inteiramente cada vida, de modo que o bem de uma não dependa da diminuição de outra. A igualdade da dignidade convive com diferenças de história, necessidade e relação. Quem precisa de proteção pede uma resposta própria; quem precisa reconhecer um dano pede outra. O fundamento amoroso permanece comum, enquanto a realidade de cada pessoa é considerada.
Nos afetos humanos, a atenção costuma ser limitada por tempo, proximidade e capacidade. Isso pode fazer parecer que todo amor exige uma distribuição competitiva: quanto mais alguém recebe, menos resta para os outros. A fé não atribui ao Amor Divino essa escassez. Deus não precisa esquecer uma vida para alcançar outra. A imagem da preferência aparece quando projetamos sobre Ele as disputas que conhecemos. Sua Presença pode ser acolhida por cada pessoa sem que ela precise tornar-se espiritualmente mais importante do que as demais.
Uma dificuldade evidente é que as condições de vida são profundamente desiguais. Algumas pessoas encontram proteção cedo; outras atravessam privações que não escolheram. Essa desigualdade exige investigação e justiça. Ela não oferece uma medida confiável do Amor de Deus. Se a prosperidade fosse tomada como sinal de predileção, o sofrimento se converteria em suspeita contra quem sofre. A própria caridade perderia seu sentido, pois passaria a confirmar uma hierarquia imaginada em vez de responder à necessidade real.
Dizer que todas as pessoas são amadas tampouco torna equivalentes suas condutas. Um gesto de cuidado e uma crueldade produzem efeitos distintos sobre vidas que possuem a mesma dignidade. O Amor Divino, compreendido como Bondade, dá importância a essa diferença. Sua Relação com quem errou conserva o horizonte de transformação; Sua Relação com quem foi ferido sustenta o valor da proteção e da reparação. A misericórdia se torna mais profunda quando alcança toda a realidade do encontro, inclusive aquilo que uma parte preferiria esquecer.
O exemplo de Jesus ajuda a compreender uma atenção que se aproxima das necessidades sem transformar proximidade em privilégio de natureza. O serviço dirigido a alguém vulnerável expressa o valor de sua vida justamente onde esse valor encontra resistência para ser reconhecido. Aprendemos assim que a igualdade do amor pode exigir respostas diferentes. Dar a todos a mesma coisa pode ser insuficiente quando as condições são desiguais; procurar o bem de cada um pede conhecimento, discernimento e disposição de corrigir a própria maneira de ajudar.
Para a pessoa que teme ter sido menos amada, essa fé oferece uma referência: sua história não precisa ser comparada à de ninguém para alcançar Deus. Para quem se sente favorecido pela vida, ela oferece responsabilidade: o bem recebido pode tornar-se ocasião de partilha, em vez de prova de superioridade. A caridade cresce quando deixamos de procurar nossa posição numa fila de predileção e começamos a reconhecer uma companhia mais ampla: vidas diferentes, amadas pelo mesmo Deus, capazes de aprender a cuidar umas das outras.
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