Livro do Amor e da Consciência · pergunta 008
Por que reconhecemos em Deus Amor e Capacidade de Relação?
Porque nossa fé encontra no amor uma expressão fundamental do bem e reconhece em Deus sua Fonte mais profunda. Essa passagem precisa ser assumida com honestidade. O simples fato de o mundo existir não demonstra que seu Fundamento seja Amoroso. Há uma distância entre afirmar uma origem e afirmar uma relação de cuidado. O Caminho da Caridade Viva acolhe ambas as convicções e procura compreendê-las em conjunto, orientado especialmente pelo modo como Jesus torna o amor reconhecível no encontro com as pessoas.
O amor oferece um conteúdo para essa afirmação. Amar alguém é desejar e favorecer seu bem por reconhecer naquela vida uma importância própria. Há atenção, disposição de acolher sua realidade e vontade de que ela possa realizar suas possibilidades. Quando chamamos Deus de Amor, atribuímos à Relação Criadora uma Orientação semelhante em sentido profundo, embora não limitada pelas condições humanas. A pessoa existe como alguém amado, e não apenas como material para o funcionamento de uma totalidade. Sua singularidade é alcançada pelo Criador.
A Capacidade de Relação significa que podemos dirigir-nos a Deus como a Quem conhece e ama. A oração ganha sentido porque seu Destinatário não é uma regra abstrata nem uma força indiferente. Nosso conhecimento dEle continua parcial, mas a relação possui conteúdo suficiente para sustentar confiança, gratidão e busca. Assim como uma pessoa pode conhecer o sentido de ser acolhida antes de compreender inteiramente quem a acolhe, podemos viver uma orientação de confiança sem possuir uma descrição completa da Realidade Divina.
A dificuldade mais forte vem do sofrimento. Um mundo atravessado por perdas e crueldades não oferece uma evidência simples de Bondade. Seria intelectualmente pobre usar os acontecimentos agradáveis como prova de Amor e converter os dolorosos, por conveniência, em lições necessárias. A fé precisa suportar a pergunta em sua força. Afirma que Deus ama e reconhece que a existência do mal exige uma reflexão que não se encerra pela repetição dessa afirmação. Nos capítulos próprios, enfrentaremos o problema; aqui importa conservar juntas a confiança e a honestidade.
O exemplo de Jesus oferece uma orientação para essa tensão. Quando o cuidado se aproxima de quem sofre, o amor adquire uma forma que podemos compreender: atenção à vida ferida, restauração de pertencimento, serviço que leva a necessidade a sério. Reconhecemos nessa direção um sinal do que significa dizer Deus Amoroso. A fidelidade a essa convicção se expressa em acompanhar a vida, inclusive onde nossas explicações falham. O valor do cuidado não depende de transformarmos cada dor em parte de um plano conhecido.
Por isso, a relação com Deus não precisa esperar uma solução intelectual para todas as questões. Ela pode começar como confiança acompanhada de pensamento: dirigir-Lhe o que vivemos, considerar o próximo como amado por Ele e deixar que essa convicção exija verdade de nossa conduta. Amar de modo imperfeito já permite compreender algo do bem anunciado. A afirmação sobre Deus permanece maior que a experiência que a torna próxima, e justamente por isso pode orientar um aprendizado que ainda não terminou.
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