Livro do Amor e da Consciência · pergunta 009

Deus é uma Pessoa do mesmo modo que nós somos pessoas?

Reconhecemos Deus como Pessoal porque podemos dirigir-nos a Ele e porque Seu Amor alcança pessoas reais. A palavra Pessoal indica Conhecimento, Relação e uma Presença a Quem a oração se dirige. Seu uso exige, porém, uma diferença: nossa personalidade se forma numa história corporal, entre aprendizado, necessidades e limites. Dizer que Deus é Pessoal não significa atribuir-Lhe essa mesma trajetória em escala maior. A Relação que afirmamos é mais profunda do que a semelhança de uma psicologia. Podemos dizer Tu a Deus sem presumir que conhecemos Sua Vida Interior como descrevemos a de um ser humano.

A linguagem religiosa trabalha por aproximações. Usamos palavras conhecidas para falar de uma realidade que não dominamos, conservando o que elas esclarecem e reconhecendo o que deixam indeterminado. Quando dizemos que Deus conhece, afirmamos que Sua Relação com a vida não é cega. Ao dizer que ama, afirmamos uma Orientação de Bondade que alcança cada pessoa. Permanecem abertas as questões sobre o modo desse Conhecimento e dessa Relação. A diferença entre sentido e descrição permite compreender algo verdadeiro sem transformar uma aproximação em retrato completo. A palavra ganha profundidade quando sua limitação é reconhecida.

Uma objeção frequente pergunta se esse cuidado com a linguagem esvazia a afirmação: se Deus não é Pessoal exatamente como nós, como saber o que ela quer dizer? Podemos responder pelo contraste entre indiferença e relação, e pelo conteúdo positivo do Amor. Uma lei física descreve regularidades; um ideal pode orientar nossa conduta; a relação com Deus inclui dirigir-nos a Quem acolhe nossa existência. Esse é o conteúdo afirmado. Ele não fornece detalhes sobre Estados Emocionais Divinos nem permite calcular Suas Respostas, mas estabelece a diferença entre confiar em uma Presença Amorosa e apenas ajustar-se a uma ordem impessoal.

Há também um risco na direção oposta: imaginar Deus como uma autoridade humana cujas inseguranças foram ampliadas. Rivalidade, necessidade de aplauso e desejo de humilhar pertencem às fragilidades humanas que o amor procura transformar. Atribuí-las ao Criador tornaria contraditório o fundamento que professamos. Seu Amor não precisa diminuir uma criatura para confirmar Sua Grandeza. A reverência nasce do reconhecimento de uma Bondade que nos precede, não da tentativa de proteger um poder suscetível. Isso modifica a oração: podemos comparecer com sinceridade porque a verdade de nossa experiência não representa uma ameaça para Deus.

A intimidade espiritual encontra lugar entre esses dois extremos. Deus é mais que uma ideia e maior que nossas imagens pessoais. Sua Transcendência conserva a distância entre o Criador e a criatura; Sua Presença torna possível a confiança. Uma pessoa pode agradecer, pedir, lamentar e permanecer em silêncio diante dEle, compreendendo que a relação não depende de possuir uma representação adequada de Sua Aparência ou de Seu Modo de existir. O vínculo se aprofunda quando a vontade de capturá-Lo em nossas categorias cede espaço à disposição de conhecer, amar e viver à luz de Sua Bondade.

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