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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro V · O vínculo

Livro V · O vínculo

22.Contemplação, oração e esperança

Questões investigadas: 141 · 142 · 143 · 144 · 145 · 146 · 147 · 148 — Ver também: 67 · 68 · 73 · 81

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Verificando a narração…

Trechos

    Um homem que não sabe se há alguém para ouvir ainda assim reza pela filha internada. O texto-base diz que não é incoerência; é uma relação que precisa ser compreendida antes de ser julgada. O capítulo 19 do texto-base trata de contemplação, oração, ritos e esperança numa doutrina que afirma do criador apenas a função e suspende o resto. Este capítulo examina como se pode contemplar, orar e esperar diante de um fundamento de que tão pouco se afirma, e sustenta que a oração do Unismo, longe de ser uma inconsistência tolerada, é um lugar em que a reserva atributiva do capítulo 9 se torna uma prática.

    1. O que se contempla

    A questão 141 responde que se contempla a existência em sua relação com o fundamento professado: o fato de vivermos sem sermos autores de todas as condições que nos permitem viver, a singularidade das pessoas e o horizonte que ultrapassa o nosso domínio. A reverência pode nascer dessa disposição, e reverenciar é reconhecer uma importância diante da qual o desejo de dispor de tudo encontra o seu limite; mas a dependência, isoladamente, não prova bondade nem obriga à adoração de qualquer poder, e a reverência se articula com o valor da existência e com o cuidado devido às suas manifestações. A gratidão pela existência pode exprimir uma disposição ampla de acolher o valor de viver, sem afirmar que cada acontecimento foi dádiva intencional. E é possível agradecer um cuidado e lamentar a violência que o tornou necessário; a contemplação sustenta uma atenção inteira, capaz de receber um bem e nomear uma injustiça, sem fazer de um a explicação apressada da outra.

    Um teólogo do início do século XIX definiu a essência da piedade como o sentimento de dependência absoluta, e a definição foi criticada por reduzir a religião a um estado subjetivo. O Unismo chega perto da definição e responde à crítica: o sentimento de não ser autor de todas as condições que permitem viver é o ponto de partida da contemplação, mas não é a prova de nada, e a intensidade da prática não demonstra a verdade da profissão. E a doutrina acrescenta uma cláusula que separa a sua reverência de qualquer adoração do poder: a dependência não obriga a reverenciar o que quer que nos sustente; a reverência se dirige ao fundamento porque se articula com a dignidade das vidas, e, na leitura aqui proposta, um fundamento que exigisse o desprezo de alguma delas não mereceria reverência: é o limite que a questão 2 impõe a toda interpretação, aplicado à própria piedade.

    2. A oração ao fundamento reservado

    A questão 142 é o centro do capítulo. A oração pode integrar a doutrina como ato voluntário dirigido ao princípio criador professado, no qual se exprimem gratidão, esperança, compromisso ou pedido. A oração tem um referente determinado pelo papel que a crença lhe atribui, o fundamento transcendente da existência; conhecer esse papel não é conhecer toda a natureza daquele a quem se dirige a palavra, e a direção intencional do ato permanece compreensível enquanto a capacidade de receber ou responder permanece em aberto. O uso de “tu”, quando escolhido, dá forma humana ao dirigir-se; não decide que o criador tenha personalidade. Quem não encontra sentido nessa interlocução pode cultivar contemplação e compromisso por outras formas. A oração pode tornar mais claro, para quem a faz, o bem desejado e a responsabilidade que assume; essa transformação do praticante e uma eventual ação do criador são afirmações distintas, e a primeira não comprova a segunda. A seriedade da oração está na honestidade da relação: o pedido não se converte em contrato, a decisão continua respondendo a razões, e o auxílio ao alcance conserva a urgência.

    A filosofia costuma ser severa com a oração de pedido: um grande filósofo moderno considerou que só a disposição interior da oração tem valor, e que pedir a Deus que faça o que devemos fazer é uma ilusão. O Unismo é mais generoso do que ele com o pedido e menos severo com a expectativa: admite que se peça e que se espere, e recusa apenas que se conte com a resposta como garantida ou devida (questões 142 e 143). Esta investigação propõe entender a oração do Unismo como um ato de direção sem informação. Quem ora dirige-se a um “tu” de que não sabe se é um tu; a direção é real, o destinatário é o fundamento professado, e nada mais é afirmado. Há na tradição religiosa uma imagem próxima, mas de sentido inverso: o altar dedicado a um deus desconhecido, a propósito do qual um apóstolo disse a uma cidade que ela adorava sem conhecer e passou, em seguida, a anunciar quem era o adorado; e há, na filosofia do diálogo, a ideia de um “tu” eterno que se pode invocar e nunca possuir. A oração do Unismo fica aquém do primeiro gesto e ao lado do segundo: invoca sem possuir e sem sequer afirmar que o invocado seja um tu. O que a torna prática, e não apenas ideia, é que ela é o lugar em que o fundamento é tratado como destinatário de uma palavra, e não apenas como objeto de um discurso; mas a doutrina não faz desse lugar uma condição: quem não encontra sentido nessa interlocução cultiva contemplação e compromisso por outras formas, sem diminuir a sua vida espiritual (questão 142), e a questão 3 situa o caráter religioso na relação com o fundamento e no modo de orientar a vida, não na oração.

    Isso responde também à pergunta deixada no capítulo 2, se uma experiência interior pode contar como justificação. A resposta que esta investigação recolhe das questões 9, 142 e 144 é dupla: a experiência pode orientar, para a pessoa, uma mudança de vida (pedir coragem para uma reparação pode acompanhar o reconhecimento do medo e a decisão de enfrentá-lo, e isso é um fato da vida de quem pede); não autoriza, por si, afirmar conhecimento das demais existências nem impor a outros a conclusão metafísica, embora mereça escuta e possa motivar investigação (questões 9 e 144). Dizer que a justificação da experiência é prática, e não teórica, é a formulação desta investigação, não do texto-base.

    3. Pedir, e o que se pede

    A questão 143 responde que é legítimo pedir que as coisas mudem, e que o que não se pode estabelecer é uma relação garantida entre intensidade da fé e realização do pedido. Se a mudança não ocorre, não há fundamento para concluir que a pessoa orou mal, mereceu a perda ou carecia de valor; se ocorre, a gratidão não exige declarar conhecido um mecanismo. E o conteúdo do pedido merece exame moral: desejar que outro seja dominado para satisfazer a nossa vontade contradiz a sua dignidade; a oração pode acolher um impulso difícil sem santificá-lo, e expressá-lo deve abrir espaço para a sua revisão. A observação é importante: no Unismo, a oração é também um exercício de exame do desejo, e um pedido injusto, dito com sinceridade diante do fundamento, é a ocasião de o reconhecer como injusto.

    4. Experiências extraordinárias e ritos

    A questão 144 trata as experiências interiores extraordinárias como acontecimentos significativos para quem os vive, cujo significado não está determinado apenas pela intensidade. Uma impressão de unidade, presença ou continuidade pode transformar a compreensão pessoal; não autoriza, por si, afirmar conhecimento das demais existências nem transmitir ordens em nome do criador. O relato merece escuta sem credulidade obrigatória nem ridicularização; devem distinguir-se o que foi experimentado, a interpretação e as consequências pretendidas; uma experiência privada não concede autoridade sobre terceiros. As práticas comunitárias não devem estimular a busca compulsiva de estados extraordinários nem tratar a sua ausência como deficiência; e, se uma experiência envolve sofrimento, o cuidado pode incluir apoio profissional.

    O estudo clássico das experiências religiosas propôs julgá-las pelos seus frutos, e não pelas suas raízes: uma experiência vale pelo que faz da vida de quem a teve. O Unismo aceita o critério para o valor da experiência e não o estende à sua verdade: os frutos não provam a metafísica. É uma posição austera, mas não inédita: o mesmo estudo já negava às experiências místicas autoridade sobre quem está fora delas. Ela decorre das questões 83 e 144: se o que não pode ser examinado não pode governar a vida alheia, a experiência que só o seu sujeito acessa não pode fundar autoridade, por mais transformadora que seja. A questão 145 aplica a mesma sobriedade aos ritos: podem tornar compartilhados compromissos e marcar acontecimentos, desde que a repetição não seja confundida com eficácia sobrenatural; nenhum rito é necessário para conferir dignidade; a participação não deve exigir exposição íntima, dispêndios constrangedores ou demonstrações emocionais; quem prefere uma despedida silenciosa não tem menos amor. Uma celebração pode reunir memória e alegria, e o seu sentido permanece vivo quando os participantes compreendem o que celebram.

    5. Esperar diante do impossível; acompanhar por muito tempo

    A questão 146 é a prova mais dura da esperança do Unismo. Quando o que se queria se tornou impossível, a esperança precisa reconhecer a perda para continuar ligada à realidade; insistir no mesmo desfecho pode prolongar a recusa de compreender. Distinguir o horizonte espiritual de uma expectativa particular permite rever um projeto sem declarar inútil toda a existência: o compromisso com uma condição superior permanece afirmado, mas não converte cada desejo em promessa nem faz da frustração um progresso oculto. Na vida concreta, a abertura pode traduzir-se na procura paciente do bem ainda possível (proteger uma memória, cuidar de quem permanece), e ninguém deve recebê-la como obrigação de produzir depressa um novo sentido; há momentos em que a esperança se exerce aceitando companhia enquanto ainda não se consegue formular um projeto. A perseverança admite mudança de meios, interrupção e recomeço.

    A questão 147 descreve o acompanhamento longo diante da morte e do luto: presença orientada pelas necessidades da pessoa; ofertas definidas e possíveis de cumprir, ajustáveis; pertencimento conservado durante o afastamento, sem transformar o retorno em meta cobrada; discrição e distribuição do esforço, para que a proximidade de um acompanhante não o obrigue a assumir sozinho todas as necessidades. A comunidade serve melhor quando a pessoa continua sendo sujeito dos seus vínculos, inclusive quando mais precisa de auxílio. É a regra do luto do capítulo 11 estendida no tempo: sustentar o cuidado sem marcar prazo para a serenidade.

    6. Quem duvida

    A questão 148 responde que quem duvida pode ter vida espiritual, porque integridade não exige afirmar como certo o que a consciência ainda não reconhece assim. A dúvida pode incidir sobre uma interpretação, uma prática ou os fundamentos, e deve ser recebida conforme as suas razões; algumas permanecem como questão que acompanha uma adesão provisória, outras levam ao afastamento, e o respeito à liberdade inclui ambas. Conservar vínculos apenas sob condição de concordância completa transforma a comunidade em instrumento de pressão. E quem duvida continua responsável por suas condutas, como quem crê: a incerteza metafísica não elimina o dever de tratar bem as pessoas.

    Esta investigação vê na questão 148 a conclusão natural deste capítulo e do anterior: a vida espiritual do Unismo não é feita de certezas, e por isso a dúvida não a interrompe. Quem contempla sem conhecer a natureza do fundamento a que a contemplação se refere, ora sem saber se é ouvido, celebra sem eficácia prometida e espera sem descrição do horizonte já vive na dúvida, e vive espiritualmente. O que distingue o adepto do cético não é a ausência de dúvida; é a direção do ato. E a direção, como a questão 142 ensinou, é compreensível mesmo quando o destinatário permanece em aberto.

    O que permanece aberto

    Primeiro: a oração como ato de direção sem informação é uma leitura desta investigação; o texto-base diz que a direção é compreensível, mas um crítico pode sustentar que dirigir-se a algo de que não se afirma que possa receber a palavra é um ato sem objeto, e que a compreensibilidade da direção é a de um gesto, não a de uma relação; o Unismo respondeu, no capítulo 9, que o fundamento não é objeto, mas não disse se é um tu, e a oração vive nessa indecisão. Segundo: a austeridade diante das experiências extraordinárias protege a comunidade de quem reivindicasse autoridade por uma experiência privada, mas pode deixar sem acolhimento quem teve uma experiência sincera e quer compreendê-la com outros; a doutrina diz como não a usar, e pouco sobre como a integrar. Terceiro: a esperança diante do impossível é descrita com uma sabedoria que o texto-base liga ao horizonte professado e ao valor das existências (questão 146), mas que não depende deles para valer: ela vale para qualquer pessoa, adepta ou não, e talvez seja o lugar em que o Unismo é mais verdadeiro e menos específico.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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