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Livro II · O ser
9.O princípio criador
Questões investigadas: 61 · 62 · 63 · 64 · 65 · 66 · 67 · 68 — Ver também: 90 · 141 · 142
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Verificando a narração…
Trechos
Uma criança pergunta quem fez o mundo; depois pergunta quem fez quem fez o mundo. O texto-base observa que a segunda pergunta é tão séria quanto a primeira, e o seu capítulo 9 é uma tentativa de responder à primeira sem fingir que responde à segunda. O Unismo reconhece um princípio criador transcendente à experiência humana imediata, e não lhe atribui, por esse único motivo, personalidade, vontade, plano, onisciência, providência ou perfeição. O resultado é uma posição religiosa de contenção deliberada: um criador de que se afirma a função e se suspende quase tudo o mais. Este capítulo examina essa contenção, situa-a na história da teologia, em que ela tem parentes, e enfrenta a questão que o texto-base deixa aberta, mas sobre a qual declara uma preferência: se o criador e a consciência fundamental são a mesma realidade.
1. Fundamento, não primeiro acontecimento
O preâmbulo do capítulo 9 do texto-base separa duas perguntas que a palavra “origem” reúne: a pergunta pelo primeiro acontecimento de uma história e a pergunta pelo fundamento do ser das existências. A questão 61 define o princípio criador como o fundamento criador das existências, cuja realidade transcende o que se apresenta à experiência imediata; “criador” exprime a relação pela qual as existências dependem dele para ser. A transcendência não o situa fora do universo; significa que ele não se esgota no conteúdo da experiência imediata. E o texto não se apoia na regra de que todo ser depende de outro, porque tal regra levantaria a questão da dependência do próprio princípio, e não foi assumida. A pergunta da criança fica em aberto, declaradamente.
A questão 62 adota, como interpretação provisória, a criação como dependência ontológica: as existências dependem do princípio quanto ao seu ser, e não somente quanto à data do seu aparecimento. Uma realidade sem começo temporal poderia depender de um fundamento; estabelecer um começo não diria de que ela depende. A chama que depende do oxigênio a cada instante, e não só no instante da ignição, ilustra a diferença. Criação diz de que dependemos, não quando começamos.
Vale reconhecer o parentesco dessa posição, que o texto-base não reivindica. Uma corrente da teologia medieval sustentou exatamente isso: que a criação é uma relação de dependência total do ser, e não um acontecimento no tempo; que um mundo sem começo seria ainda um mundo criado; e que a razão não pode demonstrar que o mundo começou. O Unismo aproxima-se desse lugar por outro caminho, sem os atributos que aquela corrente acrescentava e sem decidir, como a questão 62 adverte, se a dependência é sustentação contínua. A distinção entre “quando algo começou” e “em virtude de quê existe” tem, portanto, longa tradição, e a questão 63 a leva às últimas consequências: o antes do criador é o da base que sustenta a casa, não o de ontem em relação a hoje; perguntar o que ele fazia “antes” de haver tempo introduz uma sucessão que a pergunta precisa justificar; e a doutrina evita descrever uma cena inicial da criação, porque cenas exigem posições, agentes e intervalos, e usá-las como descrição literal anteciparia o que se quer compreender.
2. Nada do nada
Há uma passagem da questão 62 que merece exame cuidadoso, porque é uma das que mais se prestam a leitura apressada. O texto diz que a doutrina não afirma que algo tenha surgido do nada; que a experiência só conhece transformações, e a física formula esse limite como conservação; que, se criar significasse produzir do nada num instante, então, nesse sentido, nada foi criado; e que o que a doutrina afirma é outra coisa, que as existências não se sustentam por si mesmas. As notas do texto-base acrescentam que os princípios de conservação descrevem transformações dentro do universo e não decidem a pergunta metafísica pela dependência.
Esta investigação lê a passagem como uma recusa do sentido popular de “criação do nada”, o de uma produção instantânea, e não como uma tomada de posição sobre o sentido teológico clássico, que é o da dependência total do ser, sem matéria de que ele fosse feito. Nesse sentido clássico, “do nada” quis dizer, antes de tudo, “sem nada de que fosse feito”; uma parte da tradição ligou essa tese a um começo do tempo, e outra a separou dele, sustentando que um mundo sem começo seria ainda criado do nada. O Unismo, ao adotar a dependência ontológica, acompanha a segunda corrente na separação entre começo e dependência; não decide o que ela decidia, porque a questão 62 declara “concepções adicionais” tanto a produção a partir do nada quanto a organização de uma realidade preexistente. E há um risco na forma da passagem: ela pode ser lida como se um princípio físico (a conservação) decidisse uma tese metafísica (a de que nada foi produzido do nada num instante), o que contrariaria o critério da questão 46, segundo o qual nenhuma teoria científica é convocada para dar aparência de demonstração. As notas evitam essa leitura; o corpo da questão a facilita. Esta investigação registra, entre as propostas ao texto fundador, a sugestão de reformular a passagem de modo que o apelo à conservação apareça claramente como ilustração de um limite da experiência, e não como decisão de uma tese metafísica.
3. A existência não prova o criador
A questão 64 diz o que a teologia natural clássica não diria: o fato de algo existir permite perguntar pelo fundamento, mas a pergunta não seleciona uma resposta. Concluir que há um criador exigiria premissas sobre dependência, causalidade ou necessidade, cada qual carecendo de justificação, e a obra não apresenta esse percurso como concluído. A analogia da casa e do construtor é declarada o que está em disputa. Permanecem as alternativas: considerar as existências uma realidade última, admitir outra forma de dependência ou suspender o juízo. A posição da doutrina é afirmativa e delimitada: professa o princípio, esclarece a sua função e reconhece que não tem razões que obriguem todo interlocutor.
Isso situa o Unismo fora da teologia natural clássica, que pretendia demonstrar a existência de Deus, e fora do ateísmo, que a nega. A posição pode ser descrita assim: uma adesão a um fundamento transcendente que se reconhece como crença, no sentido da questão 9, e não como conhecimento. O que a distingue do fideísmo puro é que a crença é acompanhada de razões de plausibilidade e de um exame contínuo das suas dificuldades; o que a distingue do teísmo racional é que não pretende que as razões obriguem.
4. O criador e a consciência fundamental
A questão 65 é o coração do capítulo e um dos lugares em que o texto-base faz o seu gesto mais ousado, com todas as cautelas. Os fundamentos exigem distinguir os conceitos e não decidem a identidade dos referentes: “princípio criador” designa o fundamento transcendente das existências; “consciência fundamental” designa a realidade consciente una que se manifesta nas vidas. Saber o que cada nome faz não diz quantas coisas há, como “o pai” e “o médico” podem nomear uma pessoa ou duas. Uma interpretação admite distinção real; outra, identidade sob aspectos diferentes. O livro deixa a decisão aberta e, no último parágrafo, diz qual leitura prefere: se a identidade for verdadeira, aquilo que em cada pessoa é consciente é, na raiz, a própria realidade divina; a pessoa não é a totalidade dela, mas não é outra coisa que ela. E cita duas expressões de uma tradição: o ser humano feito à imagem e semelhança de Deus, e a pergunta “não está escrito: sois deuses?”. A leitura é registrada como a mais fecunda entre as que a questão admite, sem elevá-la a fundamento; e o texto diz o que ela não autoriza: ninguém fala por Deus por ser Deus na raiz, e a culpa e a memória continuam sendo de cada um.
A preferência pode ser examinada em três planos. No plano lógico, a preferência é consistente com o restante da doutrina: se criador e consciência são o mesmo, a dependência afirmada concerne às existências manifestadas, não a uma autocriação, como a própria questão nota; e a transcendência se mantém, porque a manifestação em cada pessoa não esgota o fundamento. No plano histórico, a posição resultante é uma forma de panenteísmo: tudo está no fundamento e o fundamento excede tudo o que nele se manifesta; é a posição de várias correntes místicas do judaísmo, do cristianismo e do islã, e lembra, com menos exatidão, a fórmula moderna que identifica Deus e a natureza, antes um panteísmo, que a nota do texto-base cita como paralelo justamente para marcar a diferença: o Unismo conserva a realidade das pessoas e a transcendência do princípio em relação à experiência imediata. O capítulo 25 desenvolverá a comparação. No plano exegético, as duas citações bíblicas pedem uma nota de prudência que as notas do texto-base, ao localizarem as fontes, já contêm em parte: o salmo de onde vem “sois deuses” dirige-se, na leitura tradicional, a juízes injustos, e a citação que dele faz o evangelho é um argumento sobre a licitude de um título, não uma tese metafísica; “imagem e semelhança”, por sua vez, recebeu ao longo dos séculos interpretações que vão da racionalidade à capacidade de relação, e raramente a identidade de natureza. O texto-base as usa como expressão de uma intuição, não como prova, e a questão 166 confirma o estatuto de interpretação. Esta investigação apenas recomenda, entre as propostas ao texto fundador, que o caráter ilustrativo das citações seja dito no próprio corpo da questão, para que um leitor apressado não tome a alusão por fundamento escriturístico.
5. Um fundamento perfeito e uma consciência que aprende
A questão 66 responde a uma objeção que o adepto sentirá cedo: um fundamento perfeito e uma consciência que ainda aprende não se contradizem? Só haveria contradição se o fundamento fosse declarado perfeito desde sempre, e o livro não o declara. A dificuldade reaparece se se acrescentarem atributos não examinados: quem identificar criador e consciência e declarar ambos absolutamente perfeitos terá de explicar em que sentido o aperfeiçoamento é real, e chamá-lo de aparência preservaria a perfeição à custa do valor das experiências. Na interpretação da distinção real, surge outra pergunta: por que o que depende de um fundamento apresentaria limitações a superar? Dizer que foi criado para aprender atribui uma intenção ao criador e deixa por explicar a escolha dessas condições.
A posição é, mais uma vez, a da não acumulação de atributos: o texto-base recusa combinar, sem exame, perfeição, identidade e aperfeiçoamento. A teologia conhece a alternativa que o Unismo evita e a alternativa de que ele se aproxima. O teísmo clássico afirma um Deus imutável, que nada adquire; uma corrente do século XX, a teologia do processo, afirma um Deus que tem uma natureza consequente, afetada pelo mundo e enriquecida por ele. A questão 66, lida junto com a questão 51, coloca o Unismo mais perto da segunda: se as experiências participam de um processo real e o fundamento não lhe é alheio, algo muda em relação a ele. Mas o texto-base não adota a teologia do processo, porque não afirma que o criador seja a consciência, nem que tenha natureza alguma além da função de fundamento. A questão 66 termina, como a questão 51, deixando um encargo em vez de uma solução: sem perfeição declarada não há contradição; há uma relação por explicar.
6. Atributos, nomes e valor religioso
A questão 67 formula a regra: só se atribuem ao criador os atributos incluídos na concepção adotada ou sustentados por argumentação adicional. Função de fundamento e transcendência pertencem ao conceito; onisciência, onipotência, personalidade, vontade, providência e perfeição moral não são sinônimos de fundamento. Mesmo “bom” e “inteligente” precisam ser precisados, porque passar de um sentido a outro faria parecer demonstrado o que foi acrescentado por mudança de significado. Se o termo “Deus” for empregado no âmbito da doutrina, designará esse princípio nos limites definidos, sem incorporar os atributos que a palavra traz em outras tradições.
A teologia negativa, na sua forma cristã antiga e na sua forma judaica medieval, sustentou que de Deus só se pode dizer o que ele não é; a doutrina da analogia sustentou que os atributos se dizem de Deus em sentido proporcional, nem unívoco nem equívoco. O Unismo está mais perto da primeira, com uma diferença: não nega os atributos; suspende-os. Não diz que o criador não é pessoal, onisciente ou bom; diz que a sua atribuição exigiria razões próprias, que a obra não apresenta, e que quem afirmar assumirá as dificuldades correspondentes, como a questão 90 lembrará a propósito do sofrimento. Esta investigação chama a essa posição de reserva atributiva, e a considera a chave para ler todo o Livro V: a contemplação, a oração e a esperança do Unismo são práticas dirigidas a um fundamento de que se professa a função e se suspende o resto.
A questão 68 pergunta se um criador de que se sabe tão pouco pode ter valor religioso, e responde que a relação com um fundamento não se reduz à quantidade de atributos que se lhe atribuem. Reconhecer-se numa existência que não é absolutamente independente pode orientar reverência, gratidão e atenção. A objeção é conservada com a sua força: se a natureza do princípio permanece tão pouco determinada, faltam razões para confiar que ele acolha pedidos ou assegure justiça; e o livro não preenche a falta com atributos desejados. A reverência dirige-se ao fundamento professado; a confiança num governo benevolente de cada acontecimento seria um compromisso adicional. O livro de Jó já sabia que a reverência pode sobreviver ao silêncio sobre os desígnios; o Unismo faz desse silêncio uma regra.
O que permanece aberto
Primeiro: a palavra “criador” sugere agência, e a doutrina não lhe atribui vontade e deixa aberta “sua eventual relação com um ato de vontade” (questão 62); um fundamento de que as existências dependem, sem que se afirme que ele as quer, é menos do que um criador no sentido comum; o texto-base escolheu a palavra e esta investigação não propõe trocá-la, mas registra que ela pede, em cada uso, o desconto da reserva atributiva. Segundo: a preferência pela identidade entre criador e consciência, somada à transcendência, produz um panenteísmo cuja coerência depende de que “transcende o que se apresenta à experiência humana imediata” (questão 61) e “aquilo que em cada pessoa é consciente” (questão 65) possam ser ditos da mesma realidade; a leitura da consciência como natureza (capítulo 4) ajuda, mas não foi feita para isso. Terceiro: a pergunta da criança pela origem do próprio princípio fica sem resposta e sem sequer uma interpretação provisória; a doutrina não assumiu a regra de que tudo depende de outro, e com isso evitou o regresso, mas não disse o que dizer do fundamento quanto à sua própria condição.
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Da obra
Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).
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