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Livro II · O ser
4.Uma consciência, muitos centros
Questões investigadas: 13 · 14 · 15 · 16 · 17 · 48 · 157 · 158 — Ver também: 1 · 20 · 36 · 29
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Trechos
Se a doutrina tem um problema, é este. Uma jovem chora no ônibus lotado e ninguém sente o que ela sente; a doutrina diz que o que há de consciente nela é a mesma realidade que há de consciente em cada passageiro. Como sustentar as duas coisas? O texto-base dedica ao problema o seu terceiro capítulo, volta a ele na questão 48 com uma hipótese, e o reconhece, na questão 158, como a objeção mais forte contra si mesmo. Este capítulo reconstrói o problema com os instrumentos da filosofia da mente contemporânea, que lhe deu um nome, examina a hipótese do texto-base e diz, ao final, o que está resolvido, o que está apenas bem formulado e o que ainda não está nem isso.
1. Três unidades
O texto-base distingue dois sentidos de “unidade” e, ao lado deles, a integração; convém separar os três de uma vez. A unidade numérica, que o texto-base chama também unidade consciente (questão 15), é a do fundamento: uma só realidade consciente, contada uma vez, de que as existências são manifestações (questão 13). A unidade de acesso é a de um campo de experiência: o que uma pessoa vive está reunido para ela e fechado para as demais; é a unidade que define, na vida comum, um sujeito (questão 15). A integração, o terceiro termo, é uma compreensão que conserva e articula os significados do vivido (questões 16 e 42); dela tratará o capítulo 7. O fundamento do Unismo é a primeira unidade; a interpretação que o texto-base adota sem elevá-la a fundamento (questões 11, 15 e 166) é que ela pode ser mais fundamental do que a segunda, e que a segunda não a define: pode haver uma realidade consciente una que se apresente em muitos campos de acesso fechados.
Essa distinção é o que permite ao texto-base afastar a contradição imediata. Haveria contradição se se afirmasse que existe exatamente um centro individual de experiência e, no mesmo sentido, muitos. Não é o que se afirma: a unidade é predicada do fundamento; a pluralidade, dos sujeitos situados (questão 15). Uma pessoa conhece uma promessa e outra a ignora; as atribuições pertencem a perspectivas distintas, e a relação com o fundamento não as transfere. A questão 158 acrescenta a precisão lógica decisiva: a relação de manifestação não é uma igualdade que permita substituir os seus termos em qualquer afirmação. Em linguagem técnica, como a manifestação não é identidade, a lei da indiscernibilidade dos idênticos não se aplica a ela; do fato de A e B manifestarem o mesmo fundamento não se segue que tudo o que vale de A valha de B. Assim se desfaz a contradição. Assim também se abre a dívida: se manifestação não é identidade, o que é?
2. A analogia do organismo e o seu limite declarado
A questão 15 oferece uma primeira imagem: um ser humano é um só organismo e dezenas de trilhões de células, cada uma viva; a unidade do organismo não nega a multiplicidade das células, e a vida de cada célula não é anulada pela unidade do organismo. A imagem mostra que “um e muitos” não é, em si, contradição. E o texto-base declara o limite: o organismo é composto pelas células, ao passo que a consciência fundamental não é composta pelas pessoas; a relação vai do fundamento às manifestações, e não das partes ao todo.
Esse limite situa o Unismo num mapa de posições. Na metafísica contemporânea, chama-se monismo de prioridade a tese de que o todo é fundamental e as partes derivadas, por oposição ao pluralismo, em que as partes são fundamentais e o todo derivado. Aplicado à consciência, o monismo de prioridade dá o cosmopsiquismo: há uma consciência cósmica fundamental, e os sujeitos individuais são derivados dela. O Unismo aproxima-se do cosmopsiquismo de prioridade, mas não coincide com ele: a versão corrente dessa posição toma os sujeitos por partes derivadas do todo consciente, e o texto-base recusa que as pessoas sejam partes (questão 15). A sua tese não é de composição: as pessoas não são partes que componham o fundamento, mas modos em que ele se manifesta. Há ainda uma diferença de alcance: fala das existências humanas, não do cosmos inteiro, e deixa aberta a extensão a outros seres (questão 167). A questão 13 já usa a palavra: as vidas conscientes são “modos dessa mesma realidade consciente”. Essa é a linguagem de Espinosa, para quem os indivíduos são modos de uma substância única, e o capítulo 24 mostrará o que aproxima e o que separa as duas posições.
3. O problema da decombinação
O pampsiquismo, que atribui experiência às partes últimas da matéria, enfrenta desde William James uma objeção conhecida como problema da combinação: somar muitas pequenas experiências não produz, por si, uma experiência maior; cem sensações justapostas não fazem uma sensação de cem. O cosmopsiquismo enfrenta a objeção simétrica, batizada de problema da decombinação: como uma consciência una produz, ou contém, ou se manifesta em muitos sujeitos distintos, cada qual com o seu campo fechado? Se os sujeitos fossem partes do sujeito cósmico, seria preciso explicar como um sujeito pode ser parte própria de outro, o que parece contraditório, porque a experiência de uma parte estaria e não estaria no campo do todo. O texto-base conhece a literatura, cita-a nas notas e adota a resposta que evita a contradição: as pessoas não são partes. Mas evitar a contradição é o começo, não o fim. Resta dizer que relação é a manifestação, se não é a de parte a todo.
A questão 158 formula a objeção na sua forma mais forte, e é justo reproduzir a sua estrutura. Uma consciência é um sujeito de experiência. Há muitos sujeitos reais. Logo, não há uma consciência numericamente una. Se ser consciente é ser alguém, e há muitos alguéns, falar de “níveis” seria dar outro nome à incompatibilidade. A resposta do texto-base equivale a pôr em disputa a premissa maior: que toda realidade consciente deva coincidir com um único sujeito privado é uma tese, não uma evidência, e o livro propõe distinguir realidade consciente e sujeito privado (questão 11). Mas admite que, se se demonstrasse que nenhuma relação de manifestação pode articular as duas unidades, o fundamento da doutrina enfrentaria uma objeção decisiva. E conclui com uma frase que fixa o resultado: a objeção mais forte contra o livro é também a mais bem formulada por ele.
4. A hipótese das fronteiras de acesso
A questão 48 esboça, “sem que a doutrina a afirme como verdadeira”, uma interpretação. Os centros privados não seriam substâncias separadas, mas regiões de uma mesma realidade consciente fechadas sobre si por fronteiras de acesso: cada centro experimenta o que está integrado dentro de sua fronteira e nada do que fica fora. Seria a fronteira, e não uma diferença de fundamento, que faz da minha dor uma dor que você não sente. A privacidade, a ausência de memória entre existências e a coexistência de muitos centros no mesmo período seriam efeitos dessas fronteiras, não exceções à unidade.
O texto-base apoia a hipótese em três analogias e declara o que toma de cada uma. Do transtorno dissociativo de identidade, em que uma só mente abriga personalidades sem acesso mútuo às lembranças e distinguíveis em exames de imagem, toma a ideia de que o número de centros acompanha a integração e não o número de corpos. Do cérebro dividido, em que a secção das vias entre os hemisférios faz um só cérebro comportar-se, em muitos testes, como dois centros, toma a mesma ideia; e as notas registram que um estudo recente contesta essa leitura e conclui por percepção dividida com consciência indivisa. De uma teoria científica atual da consciência, que as notas identificam como a teoria da informação integrada, toma o postulado de exclusão: há um sujeito onde a integração é máxima, e é esse máximo que traça a sua borda. A hipótese acrescenta o que nenhuma dessas observações afirma: que aquilo que se integra em cada centro é a mesma realidade consciente.
A hipótese pode ser avaliada em três passos. Primeiro, o que ela explica. Ela dá uma resposta unificada a três fatos que, sem ela, parecem exceções à unidade: a privacidade da experiência, a falta de memória entre existências e a contemporaneidade. A questão 48 pode então dizer que a contemporaneidade não é uma exceção à unidade, mas o caso comum dela. Segundo, o que ela custa. A hipótese faz a interpretação depender de uma tese sobre a individuação dos sujeitos, a de que sujeitos são delimitados por fronteiras de integração, que é hoje um programa de pesquisa e não um resultado. Se a teoria da informação integrada for abandonada, a analogia perde o seu apoio mais preciso, embora não a sua forma. Terceiro, o que ela não faz. O próprio texto-base identifica o passo decisivo que a hipótese não dá: se uma região fechada sobre si é um sujeito distinto ou o mesmo sujeito com acesso repartido. Este é exatamente o ponto em que a objeção da questão 158 volta a morder. Se a região é um sujeito distinto, temos muitos sujeitos e falta explicar em que sentido a realidade que os contém é consciente, e não apenas o substrato deles. Se a região é o mesmo sujeito com acesso repartido, temos um só sujeito e falta explicar em que sentido as pessoas são realmente distintas, como a proposição 3 exige.
5. Um desenvolvimento: consciência como natureza e sujeito como forma
Esta investigação propõe um desenvolvimento, que não está no texto-base e que o leitor deve avaliar por si. A objeção da questão 158 depende de usar “consciência” como substantivo contável, sinônimo de “sujeito”. Mas há um uso em que “consciente” é predicado de uma natureza, não de um indivíduo: dizemos que a matéria viva é viva sem contar organismos, e dizemos que a experiência é consciente sem contar sujeitos. A tese do Unismo pode ser lida assim: há uma única realidade cuja natureza é ser consciente, e os sujeitos são as formas em que essa natureza se apresenta delimitada. O fundamento seria consciente como natureza; as pessoas seriam conscientes como sujeitos. A objeção “uma consciência é um sujeito” seria, nessa leitura, verdadeira dos sujeitos e falsa do fundamento, porque a palavra é tomada em dois sentidos declarados. A leitura herda, porém, um encargo que o texto-base já fixou: a questão 157 adverte que, se “consciente” passasse a significar apenas que a experiência surge de algum modo, a tese perderia o que pretende afirmar, e a questão 16 exige de quem dispensa um campo total que explique o que torna a realidade una propriamente consciente. Uma natureza consciente que não é ninguém precisa dizer em que a sua consciência excede a de uma mera condição da experiência, e a leitura aqui proposta não sabe dizê-lo.
A leitura tem um apoio no próprio texto-base, que na questão 13 não estabelece para o fundamento “uma perspectiva total” nem “pensamentos semelhantes aos humanos” e deixa aberta a sua forma, e que na questão 16 declara que a unidade não exige que alguém sinta tudo. Um fundamento consciente que não precisa ser ninguém é justamente uma natureza consciente que não precisa ser, ela mesma, um sujeito. Uma analogia da física ajuda a ver a forma, com a advertência de que analogias não provam: há um só campo eletromagnético no universo, numericamente um, e há incontáveis excitações locais dele; cada excitação é real, está num lugar e tem limites, e nenhuma é o campo inteiro. A analogia mostra que “numericamente uno” e “muitos modos locais” convivem sem contradição numa entidade que não é composta pelos seus modos. O que ela não mostra, e aqui o limite deve ser dito como o texto-base diz os seus, é por que os modos de uma natureza consciente seriam sujeitos com acesso privado, e não apenas regiões de um único campo de experiência. O desenvolvimento desloca a dificuldade; não a elimina. Mas a desloca para o lugar certo: a pergunta deixa de ser “como um sujeito pode ser muitos” e passa a ser “o que faz de uma região de uma natureza consciente um sujeito”. Essa é uma pergunta que a ciência da consciência já faz por conta própria, com respostas em disputa, e o Unismo pode acompanhá-la sem inventar a sua.
6. Unidade não é uniformidade; a tese nomeia algo
Duas questões completam o capítulo do texto-base e merecem registro breve. A questão 17 afasta a confusão entre unidade e uniformidade: pessoas situadas em condições diferentes recebem informações diferentes e deliberam a partir de histórias que não são intercambiáveis; a unidade oferece uma razão de proximidade, não um direito de assimilação. A consequência comunitária é imediata: uma comunidade deve reconhecer o mesmo valor em pessoas reservadas ou expansivas, e o juízo moral incide sobre condutas, não sobre a distância em relação ao temperamento de um dirigente. O capítulo 23 a desenvolverá.
A questão 157 responde à suspeita de que “consciência fundamental” nomeie apenas o que ignoramos. A resposta dá conteúdo à tese pelo contraste com as rivais (consciências independentes; causa comum sem manifestação) e faz uma observação de equidade: a concepção que toma as pessoas como realidades conscientes últimas tem o seu próprio encargo, o de esclarecer as condições de existência e relação dessas realidades, se não as aceitar como fatos brutos. Nenhuma posição vence por atribuir à concorrente o trabalho que dispensa a si mesma. A paridade de encargos não favorece o Unismo; apenas impede que ele seja descartado por um critério que não se aplica igualmente aos rivais.
7. Balanço
O que está resolvido: a contradição formal entre “uma consciência” e “muitas consciências” desaparece quando se distingue unidade numérica do fundamento e unidade de acesso dos sujeitos, e quando se reconhece que a manifestação não é identidade. O que está bem formulado: o problema da decombinação, na versão em que as pessoas não são partes do fundamento, com uma hipótese de trabalho, a das fronteiras de acesso, que explica três fatos e depende de uma teoria da individuação ainda em disputa. O que não está nem formulado de modo suficiente: a passagem de “região fechada” a “sujeito distinto”, isto é, a explicação da manifestação. A leitura aqui proposta, que separa consciência como natureza de sujeito como forma, torna a tese mais inteligível e não a torna mais verdadeira.
O que permanece aberto
Primeiro: o passo decisivo, nas palavras do texto-base, entre unidade de acesso e unidade consciente, continua sem explicação, e o encargo de fornecê-la continua sendo do próprio Unismo (questão 11); a filosofia da mente e a ciência da consciência podem ajudá-lo ou mostrar-lhe que o passo é impossível, mas a abertura da pergunta não conta a favor da doutrina (questão 161). Segundo: se o fundamento não tiver campo próprio de experiência, possibilidade que a questão 16 deixa aberta sem a afirmar, é preciso dizer em que sentido ele é consciente e não apenas condição da consciência; a leitura da consciência como natureza responde a isso, mas ao preço de admitir que “consciente” tem dois usos, e o leitor pode julgar que a admissão é um artifício. Terceiro: a hipótese das fronteiras de acesso está ligada a uma teoria científica particular; se ela cair, a interpretação precisará de outra analogia, e o texto-base não aposta nela mais do que “uma forma”.
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Da obra
Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).
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