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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro II · O ser

Livro II · O ser

8.As ordens do tempo

Questões investigadas: 45 · 46 · 47 · 49 · 50 · 51 · 52 — Ver também: 48 · 63 · 55

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Verificando a narração…

Trechos

    Um homem espera o resultado de um exame, e os dias até a consulta são mais longos do que os meses anteriores; no calendário, são sete dias como quaisquer outros. O texto-base parte dessa diferença para dizer que já conhecemos dois tempos que não coincidem, e que a doutrina precisa falar de um terceiro, que não conhece, sem fingir conhecê-lo. O capítulo 7 do texto-base apresenta-se como investigação filosófica no sentido estrito: distingue, examina possibilidades e diz onde uma afirmação excederia os fundamentos. Este capítulo o acompanha, situa as suas distinções na longa história da filosofia do tempo e examina a tese do Unismo que mais se afasta do senso comum e mais cuidado exige: a de que as existências não formam uma fila.

    1. Quatro coisas chamadas tempo

    A questão 45 separa quatro sentidos. A sequência vivida é a ordem em que uma pessoa experimenta acontecimentos como anteriores, presentes ou esperados: a espera precede a notícia, a promessa precede o seu cumprimento. A cronologia compartilhada é a ordenação pública dos acontecimentos por referências comuns, que permite relacionar histórias que ninguém viveu inteiras. Uma ordem temporal diferente seria ainda uma sucessão, com relações que não coincidiriam com as datas humanas. Uma perspectiva extratemporal, sem antes nem depois, seria uma relação com as existências que não se organizasse pela passagem de um momento a outro; e o texto adverte que ela não é um tempo mais vasto nem uma memória maior. Só as duas primeiras nos são conhecidas.

    A filosofia distinguiu essas coisas por caminhos próprios, e a comparação situa o texto-base numa história que ele não reivindica. A sequência vivida é o tempo da alma descrito nas Confissões: um presente do passado, que é a memória; um presente do presente, que é a atenção; um presente do futuro, que é a expectativa. A cronologia compartilhada é a ordem das datas, em que os acontecimentos são anteriores ou posteriores uns aos outros por referências que não dependem de quem os viveu. A distinção lembra, sem coincidir com ela, a que a filosofia do século XX traçou entre duas séries do tempo, a dos acontecimentos como passados, presentes e futuros e a dos acontecimentos como anteriores e posteriores uns aos outros: aquela separa o vivido do público, esta separa duas ordenações dos mesmos acontecimentos, e o debate sobre qual delas é fundamental continua. A perspectiva extratemporal é a eternidade no sentido antigo, a posse inteira, perfeita e toda de uma vez de uma vida sem limite (“simultânea”, dizia a fórmula, e a palavra já trai a dificuldade), que uma tradição atribuiu a Deus para conciliar presciência e liberdade. O texto-base não afirma que qualquer dessas perspectivas descreva o fundamento. E faz uma observação que desmonta uma imagem popular e atinge a própria fórmula antiga: a simultaneidade ainda é uma relação temporal (questão 51); dizer que todas as vidas são simultâneas não é sair do tempo, é escolher um instante e pôr tudo nele.

    2. O tempo é real?

    A questão 46 responde com uma reserva deliberada. O livro leva a sério prazos, esperas e durações, e não decide o que o tempo é no fundo. Seria precipitado afirmar que o tempo é ilusão: uma interpretação segundo a qual ele não é fundamental ainda precisaria explicar por que a experiência tem sucessão e por que as ações encontram limites temporais; chamar uma condição de derivada não a torna inexistente. Seria igualmente precipitado supor que toda realidade transcorre como a nossa. E nenhuma teoria científica é convocada para dar aparência de demonstração a uma decisão metafísica aberta.

    Essa última frase tem um alvo preciso. Há uma versão popular da física em que o “universo-bloco” da relatividade, no qual passado, presente e futuro coexistiriam, serviria de prova de que o tempo não passa, e essa versão é por vezes usada por doutrinas espirituais para dizer que todas as existências estão dadas de uma vez. O Unismo não a usa. A interpretação metafísica das teorias físicas do tempo é ela própria disputada entre físicos e filósofos, e o texto-base faz o que a proporção exige: não empresta a uma tese metafísica a autoridade de uma teoria que não a contém.

    3. Muitas existências, nenhuma fila

    A questão 47 é o centro do capítulo. O que quer dizer que as existências não precisam seguir a ordem das datas? Não se afirma que uma vida venha depois da outra, nem que uma personalidade passe de um corpo a outro. Afirma-se que não se assume, como condição doutrinária, uma passagem da consciência fundamental por vidas ordenadas das mais antigas às mais recentes. A proposição é permissiva, não descritiva: afasta a obrigatoriedade de uma ordem e não estabelece outra. Não autoriza narrar itinerários entre épocas, indicar qual existência viria depois de uma morte ou dizer que alguém ocupará determinado lugar histórico.

    O texto evita a palavra reencarnação porque ela pode sugerir uma identidade psicológica reconhecível que deixa uma vida e entra na seguinte segundo uma sucessão definida; os fundamentos não estabelecem esse mecanismo. E responde à intuição popular de que a consciência precisaria percorrer todas as vidas, uma a uma, até a última: não há um sujeito que visite as existências em fila, voltando a viver como “outra pessoa” o que era ele mesmo; cada vida é, já, uma manifestação da consciência fundamental. O que resta ao processo não é completar uma lista de vidas, mas compreender. A pergunta “até quando?” não tem resposta em datas: a doutrina afirma uma direção, não um prazo. Muitas existências, sim; uma fila de vidas, não.

    Na leitura aqui proposta, essa tese é a que mais distingue o Unismo das doutrinas da reencarnação, e o capítulo 25 medirá a distância. Aqui interessa examinar uma frase da questão 47 que parece tensionar outra do livro. A questão diz que, nesse sentido preciso, “tudo o que é vivido por alguém é vivido por ela”, a consciência fundamental, “no centro em que ocorre, e como daquele alguém”; a questão 16 diz que a unidade não exige um campo total em que todas as vivências se apresentem conjuntamente. As duas afirmações são compatíveis, mas a compatibilidade precisa ser dita. O que a questão 47 afirma é que nenhuma experiência humana é estranha ao fundamento, porque cada centro é um modo dele; o que a questão 16 deixa em aberto é se essas experiências estão, além disso, reunidas numa só perspectiva: a unidade não exige esse campo total, e o livro admite investigá-lo. A consciência fundamental vive tudo o que é vivido, e o vive em cada centro, como de cada alguém; se há também um lugar em que o viva junto, o texto-base não o afirma nem o nega. A leitura da consciência como natureza, proposta no capítulo 4, é a que torna a distribuição inteligível: uma natureza está inteira em cada um dos seus modos sem estar reunida em nenhum. Esta investigação registra, entre as propostas ao texto fundador, a sugestão de que as duas passagens remetam uma à outra, para que o leitor não veja contradição onde há distribuição.

    4. Mudar o passado, tudo já decidido

    A questão 49 responde a uma consequência apressada: existir em várias épocas permitiria mudar o passado? Não; admitir manifestações sem sucessão metafísica estabelecida não equivale a afirmar que alguém possa voltar a um acontecimento e eliminar seus efeitos. Confundir ausência de ordem conhecida com disponibilidade de todas as ordens seria passar da ignorância a uma capacidade inventada. Não saber a ordem das cartas de um baralho não é poder reordená-las. A reparação trabalha com a realidade do acontecido, e a sua honestidade depende de não apagar o que procura reparar. Quanto a uma causalidade entre manifestações de épocas distintas, a resposta rigorosa é suspender a afirmação; não se precisa dela para sustentar que as condutas importam.

    A questão 50 enfrenta o fatalismo. Se há um conjunto de todas as existências, tudo já está decidido? A resposta recusa tanto a imagem do livro já escrito quanto a pretensão de ter provado que ele não existe. Totalidade pode designar tudo o que pertence a um domínio, sem que se tenha explicado como o domínio se relaciona com o tempo; para concluir que cada acontecimento está fixado ou permanece aberto seriam necessárias premissas sobre o estatuto do futuro, da possibilidade e da ação. O texto nota que “já concluída” introduz uma referência temporal, e que retirar o advérbio não resolve: uma realidade completamente determinada, mesmo sem antes e depois, ainda suscitaria a pergunta pelo lugar das escolhas que poderiam ter sido outras. É o problema antigo da batalha naval, que a lógica discute desde a Antiguidade, e o problema moderno do determinismo, e o Unismo os deixa onde estão: nem o livro já escrito, nem a prova de que ele não existe.

    5. Pode uma consciência fora do tempo melhorar?

    A questão 51 é a mais exigente do capítulo, e a sua distinção inicial merece exame detido: mudança, comparação e ordem não são a mesma coisa. Dizer que uma condição é melhor do que outra compara; não afirma que algo passou de uma para a outra. Duas fotografias podem ser comparadas sem que uma se transforme na outra. Aperfeiçoar-se acrescenta uma transformação: algo se torna capaz de compreender ou agir melhor. Se o fundamento fosse declarado alheio a toda sucessão, seria preciso explicar em que sentido haveria aquisição e não apenas diferença entre condições. Comparar não é mudar; aperfeiçoar-se exige que algo mude.

    Daí o texto-base extrai a sua posição: a doutrina não afirma atemporalidade absoluta; sustenta a participação das experiências num processo e admite que a ordenação desse processo possa não coincidir com a cronologia humana. Há espaço para investigar uma ordem de transformação distinta da sucessão das datas. A decisão tem um alcance que convém medir: ela afastaria o Unismo do teísmo clássico, em que Deus é imutável e nada adquire, e o aproximaria das teologias em que o divino é afetado pelo mundo e se enriquece com ele. A comparação só vale, porém, sob a leitura da identidade entre criador e consciência (questão 65); sem ela, a questão 51 diz respeito apenas à consciência fundamental, e a questão 66 dirá do criador somente que nenhuma perfeição lhe foi declarada, deixando a relação por explicar. E esta investigação propõe uma maneira de tornar pensável uma “ordem de transformação distinta da sucessão das datas”, no estatuto de hipótese: há ordens que não são temporais e não são, por isso, ilusórias. A ordem dos capítulos de um livro não é a ordem em que foram escritos; a ordem das razões numa demonstração não é a ordem em que ocorreram a quem a descobriu; a ordem de dependência que a questão 63 distingue da cronologia é uma ordem real. Uma ordem de integração seria, nessa hipótese, uma ordem de pressuposição entre compreensões: o que precisa ser compreendido para que outra coisa o seja. Ela permitiria falar de dependência entre compreensões sem datas, porque uma compreensão pode pressupor outra sem vir depois dela no calendário; não permitiria ainda falar de aquisição, que, pela questão 51, exige que algo mude. O que a hipótese não explica, e a questão 51 exige que se explique, é como uma ordem de pressuposição pode ser um processo, isto é, algo em que alguma coisa muda; a hipótese dá a ordem, não a mudança, e a palavra processo não pode, sem perder o conteúdo que a questão 51 lhe reserva, ser lida com esse desconto.

    6. Os limites das hipóteses

    A questão 52 encerra o capítulo com uma regra de método a que as duas hipóteses aqui propostas ficam submetidas. As hipóteses sobre outras vidas e outros tempos devem conservar a diferença entre possibilidade, interpretação adotada e afirmação estabelecida; não ganham força por responder a muitas perguntas se cada resposta exige acrescentar uma condição inexaminável; convém perguntar o que explicam, que dificuldades criam e como se distinguiriam de alternativas; e uma hipótese que explique qualquer coisa que aconteça, e também o seu contrário, não explicou nada. O texto acrescenta o uso em que a reflexão abandona o método que pretende seguir: quando serve para desqualificar perguntas ou atribuir a alguém acesso privilegiado ao destino alheio. O critério vale contra os intérpretes do Unismo tanto quanto contra os seus críticos, e vale contra esta obra.

    O que permanece aberto

    Primeiro: o estatuto último do tempo permanece indeciso por decisão, e essa indecisão tem custo na questão 51, porque “processo” pede uma ordem de mudança que a doutrina não descreve; a hipótese de uma ordem de pressuposição torna pensável a ordenação, não a mudança; e a questão 51 recusa que a palavra processo seja esvaziada. Segundo: a distribuição das experiências pelos centros (questão 47), sem decisão sobre a sua reunião (questão 16), é coerente, mas deixa sem resposta a pergunta de a quem, afinal, a compreensão integrada pertenceria, se não houver perspectiva que a reúna; o capítulo 10 voltará a isso ao examinar o horizonte. Terceiro: a recusa da fila de vidas resolve muitos problemas e cria um, que o texto reconhece na questão 162: sem sucessão, é preciso outro sentido de aquisição, e ele ainda não foi dado.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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