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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro VI · O diálogo

Livro VI · O diálogo

25.O Unismo diante das religiões

Capítulo de desenvolvimento; questões referidas: 3 · 47 · 65 · 70 · 89 · 142 · 145 · 159

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Verificando a narração…

Trechos

    O Unismo nasce num país em que as religiões convivem, se misturam e se disputam, e o seu texto fundador cita, sem esconder, o Vedanta, um físico leitor do Vedanta, um conto contemporâneo sobre um único indivíduo que vive todas as vidas, o Gênesis, um salmo e um evangelho. Este capítulo põe a doutrina diante das religiões com que ela tem parentesco ou contraste: as tradições da unidade, as tradições das existências múltiplas, as tradições do criador, as religiões brasileiras e o humanismo secular. O objetivo é o do capítulo anterior, dizer o que se toma, o que se recusa e o que é próprio, e com uma advertência que decorre do texto-base: a comparação não é hierarquia, porque diferença de crença não é desigualdade entre pessoas (questão 159), e, na leitura aqui proposta, tampouco é sincretismo.

    1. Como o Unismo se relaciona com as outras religiões

    Antes de comparar, convém dizer como a doutrina se posiciona diante da pluralidade religiosa, porque a posição condiciona a comparação. O texto-base recusa o exclusivismo: quem não aceita a metafísica pode partilhar a ética (questão 4), pessoas de crenças diferentes podem agir juntas (questão 125), um leitor pode aderir a uma concepção religiosa diferente que também respeite a singularidade, e a doutrina deve oferecer as suas razões dentro dessa pluralidade (questão 159). Recusa a superioridade: a adesão não confere superioridade a quem a professa (questão 20), e a intensidade das práticas não é título (questão 3). E recusa, implicitamente, o sincretismo: não diz que todas as religiões afirmam o mesmo, mas que a sua afirmação é uma entre outras, com conteúdo determinado (questão 157). A posição resultante é a de uma doutrina que se sabe uma opção e trata as demais como opções, sem relativismo, porque as considera diferentes da sua e incompatíveis com ela no que afirma (questão 20), e sem arrogância, porque se considera possivelmente errada também (questão 160).

    2. As tradições da unidade

    A intuição de uma só consciência sob as vidas tem a sua formulação clássica no Vedanta não dualista: há uma única realidade, Brahman, e o si-mesmo de cada ser, o ātman, é idêntico a ela; a multiplicidade dos sujeitos resulta de adjuntos limitadores, o corpo e a mente, que fazem a consciência única parecer muitas; a fórmula “isso és tu” exprime a identidade, e a libertação consiste em reconhecê-la. O texto-base cita essa escola nas notas e declara as diferenças: as pessoas são reais e distintas, e não aparências de um só indivíduo; a culpa e a memória não se transferem; nem a ordem das existências nem um plano são afirmados. Na leitura aqui proposta, o parente mais próximo do Unismo no Vedanta talvez não seja a escola não dualista estrita, mas a do não dualismo qualificado, para a qual as almas individuais são reais e permanecem distintas como modos ou atributos de Brahman, que é o seu si-mesmo interior. A estrutura de modos reais de uma realidade una é a do Unismo. A diferença permanece: o Unismo não tem uma via de libertação, nem pelo reconhecimento da identidade, como na escola estrita, nem pela devoção a um Deus pessoal, como na qualificada, e não descreve o fundamento como pessoa divina.

    O sufismo, dentro do islã, e a Cabala e o hassidismo, dentro do judaísmo, desenvolveram intuições parentes. Um mestre andaluz dos séculos XII e XIII foi lido como afirmando a unidade da existência, em que só Deus é real e as criaturas são as suas manifestações; a mística judaica pensou o Infinito que se contrai para dar lugar ao mundo e as centelhas divinas dispersas nas coisas; correntes hassídicas disseram que não há nada senão Deus. O Unismo partilha com essas correntes a linguagem da manifestação e a ideia de um fundamento que se apresenta em muitos, e delas se distingue onde afirmam, como o hassidismo de Chabad e as leituras mais radicais da unidade da existência, que só o fundamento é real: no Unismo, a pessoa é tão real quanto a raiz, e nisso a Cabala do tzimtzum, que contrai o Infinito justamente para dar lugar a um mundo real, é a mais próxima das três. Na mística e na teologia cristãs, a identidade do fundo da alma com o fundo de Deus e a doutrina da divinização, segundo a qual Deus se fez humano para que o humano se fizesse deus, oferecem a linguagem que a questão 65 toma emprestada (“sois deuses”); a diferença, aqui, é que a divinização cristã é dom recebido por graça, e o Unismo não tem o conceito de graça, nem afirma que a pessoa se torne o fundamento: afirma que ela já manifesta a consciência fundamental e, na leitura preferida da questão 65, a própria realidade divina.

    O que o Unismo recusa, onde as tradições da unidade o afirmam, é a irrealidade ou a inferioridade da pessoa singular e a hierarquia entre quem reconheceu a unidade e quem não a reconheceu; e o que inverte é a ordem em que a unidade se realiza, que nelas começa na relação interior com o fundamento, ainda que nenhuma tenha dispensado a comunidade nem o serviço. É a inversão do capítulo 6, e é o que o Unismo tem de próprio diante delas: a unidade se aprende no encontro com o outro, não se pressupõe antes dele (questão 36).

    3. As tradições das existências múltiplas

    O hinduísmo e o budismo afirmam a multiplicidade das existências sob a forma do renascimento, governado pela lei do carma: as ações de uma vida pesam sobre as condições das seguintes. O budismo acrescenta uma tese que o aproxima do Unismo por um lado e o afasta por outro: nega que haja um eu permanente que transmigre, e afirma que o que continua é um fluxo condicionado; mas nega também, na maioria das suas escolas, uma consciência fundamental una, que seria mais uma ilusão de substância. O Unismo concorda com o budismo em que não há um sujeito que viaje de vida em vida (questão 47) e discorda em que afirma uma realidade consciente fundamental; concorda em que o sofrimento merece compaixão sem justificação e dele se afasta por não fazer do sofrimento a marca de toda existência; e recusa, das duas tradições, a leitura popular do carma que explica o sofrimento presente por atos passados (questão 89), recusa que o próprio budismo antigo em parte antecipou, ao negar que tudo o que se sente venha de atos anteriores, e dispensa a retribuição como motivo da conduta, sem desprezar os motivos imperfeitos com que alguém começa a mudar (questões 4 e 82).

    No Brasil, a tradição das existências múltiplas mais difundida é o espiritismo, e a comparação é obrigatória porque o Unismo será lido, com frequência, como uma variante dele. As convergências são reais: a multiplicidade das existências, o progresso moral como sentido do processo, a recusa da condenação eterna, a caridade como prática central, a ausência de sacerdócio e de ritos obrigatórios, o respeito ao estudo e à razão. As diferenças são de fundo. O espiritismo afirma um espírito individual que sobrevive com identidade e memória, encarna sucessivamente e progride segundo uma lei de causa e efeito; o Unismo não afirma sobrevivência pessoal (questão 78), não afirma sucessão (questão 47), não autoriza a lei de causa e efeito como explicação do sofrimento (questão 89) e a dispensa como motivo (questão 4). O espiritismo afirma a comunicação com os espíritos e recebe deles ensinamento; o Unismo não conhece entidades, não atribui autoridade a uma comunicação pelo simples fato de ser apresentada como tal (questão 83) e trata as lembranças de outras vidas como relatos que nada provam por si, ainda que possam ser examinados (questão 39). O espiritismo distingue espíritos por graus de evolução; o Unismo não estabelece escala alguma de pessoas (questão 71). A distância pode resumir-se assim: o espiritismo é uma doutrina das existências múltiplas de um mesmo indivíduo; o Unismo é uma doutrina das existências múltiplas de um mesmo fundamento, e cada existência é de um indivíduo distinto. As duas podem parecer iguais de longe e são opostas de perto no que mais importa, a identidade de quem vive as vidas.

    4. As tradições do criador

    O judaísmo, o cristianismo e o islã afirmam um Deus criador, pessoal, único, que se revela e que julga. O Unismo toma dessas tradições duas coisas e recusa quatro. Toma a criação como dependência do ser, que a teologia clássica das três religiões formulou com rigor e que o capítulo 9 examinou; e toma a linguagem da imagem e semelhança, como expressão de uma intuição sobre o parentesco entre o fundamento e a pessoa. Encontra, no livro de Jó, que não cita, um precedente da sua própria recusa de explicar o sofrimento pela culpa da vítima (questão 89). Recusa a revelação como fonte de autoridade (a questão 3 não estabelece revelação infalível, e a Introdução declara que as perguntas e respostas não são transcrições de revelações), o sacerdócio e os ritos obrigatórios (questão 3), a atribuição ao criador, sem razões próprias, dos atributos que não decorrem da função de fundamento (questão 67) e a promessa de intervenção (questões 3 e 143); e não afirma, diferença que pesa diante da teologia clássica das três, a criação a partir do nada (questão 62).

    Três contrastes merecem atenção especial. O primeiro é o perdão: o cristianismo faz dele um dever central, a ser concedido sem limite; o Unismo declara que não há dever de perdoar (questão 105). A diferença é menor do que parece, porque a teologia cristã também distingue o perdão da reconciliação e da confiança, e porque o Unismo não desaconselha o perdão, apenas o retira da lista das obrigações; mas a diferença de ênfase é real e tem consequência: numa comunidade do Unismo, ninguém pode ser pressionado a perdoar. O segundo é a graça: as três tradições, sob nomes diferentes, graça, eleição, misericórdia, afirmam uma iniciativa divina que precede e sustenta a resposta humana; o Unismo não tem esse conceito, porque não atribui vontade ao criador (questões 61 e 62), e a sua esperança se dirige a um horizonte, não a um dom. O terceiro é o corpo: o judaísmo rabínico e o cristianismo afirmam a ressurreição dos mortos, e o islã a ressurreição corporal no juízo; o Unismo deixa a continuidade pessoal aberta e não descreve nenhuma forma de vida futura. E há um contraste de fundo com o islã, que deve ser dito com clareza para que ninguém confunda parentesco com identidade: a unidade que o islã afirma é a de Deus, e a distinção entre o Criador e as criaturas é intransponível, ainda que Deus seja dito mais próximo de cada um do que a sua própria veia jugular; a unidade que o Unismo afirma é a de uma realidade consciente manifestada nas criaturas, o que, na perspectiva da teologia clássica das três tradições, e de modo especialmente nítido na islâmica, seria uma confusão entre o Criador e o criado. Correntes místicas das três tradições aproximaram os dois termos; as suas teologias dominantes os mantiveram separados; o Unismo, na leitura que a questão 65 prefere sem adotar como fundamento, está do lado em que essas teologias não estão.

    5. As religiões brasileiras

    Além do espiritismo, o Unismo encontra no Brasil o catolicismo, as igrejas evangélicas e as religiões de matriz africana. Com o catolicismo, partilha a linguagem da dignidade da pessoa, que a doutrina social católica desenvolveu extensamente, e a intuição da divinização; dele se distingue pela ausência de sacramentos, magistério e revelação. Com as igrejas evangélicas, partilha a recusa de um sacerdócio sacramental, o primado do estudo e a primazia da adesão pessoal sobre a pertença herdada, e delas se distingue por não reconhecer uma revelação infalível (questão 3); com a parte delas que adotou a teologia da prosperidade, o contraste é o mais nítido de todos no plano da prática: a questão 153 recusa expressamente as promessas de prosperidade e as distinções de valor entre pessoas segundo o que oferecem, e a questão 143 recusa a relação garantida entre a intensidade da fé e a realização do pedido; onde a contribuição é exigida como prova de valor espiritual, o Unismo vê exploração (questão 153). Com as religiões de matriz africana, o candomblé e a umbanda, a relação é de respeito sem parentesco doutrinário próximo: elas afirmam uma força vital que atravessa tudo e uma ancestralidade que liga os vivos aos que vieram antes, intuições que ressoam com a unidade e com a multiplicidade, e a umbanda afirma também existências múltiplas, com uma lei de causa e efeito que herdou do espiritismo; mas conhecem entidades, incorporação e ritos, que o Unismo não conhece nem julga. O texto-base não diz nada sobre elas, e resta registrar que os princípios da questão 127, respeitar quem pensa diferente dirigindo a crítica ao que pode ser discutido, valem para a relação com todas.

    6. O humanismo secular

    A última comparação é com quem não tem religião. O humanismo secular afirma a dignidade humana, a razão e a responsabilidade sem fundamento transcendente, e a ética do Unismo é quase inteiramente compartilhável com ele, como a questão 4 reconhece e o Livro IV desta obra confirmou: nenhum dos dez princípios depende da metafísica. A diferença está no que o gesto significa (questão 159), na extensão do pertencimento a quem não pode retribuir, e na esperança diante da morte, que o humanismo não oferece e o Unismo oferece com a contenção do capítulo 11. O Unismo está, assim, perto do humanismo secular, a ponto de um humanista poder ler o Livro dos Fundamentos, discordar das sete proposições que afirmam ou pressupõem a metafísica (1, 2, 4, 5, 6, 7 e 8) e concordar, sem reserva, com as proposições 3, 9 e 10; e essa proximidade é uma escolha da doutrina, que preferiu uma metafísica de baixa interferência a uma que competisse com a razão comum.

    7. Um lugar no mapa

    Recolhendo, o Unismo está entre as tradições da unidade pela sua metafísica, entre as tradições do criador pela sua afirmação de um fundamento transcendente, entre as tradições das existências múltiplas pela sua recusa de limitar a vida a uma biografia, e entre as éticas da dignidade, religiosas e seculares, pela sua moral. Não está inteiramente em nenhuma. O que o distingue das religiões com que foi comparado é o conjunto das suas recusas: nenhuma autoridade sobre o inverificável, nenhuma escala de pessoas, nenhuma justificação do sofrimento, nenhuma promessa de intervenção, nenhuma obrigação de perdoar, nenhuma retribuição como motivo; do humanismo secular, que partilha essas recusas, distingue-o só o que professa. Uma religião que se define, em parte, pelo que se proíbe de afirmar tem precedentes, da teologia negativa ao silêncio budista sobre as questões que não conduzem à libertação; a novidade está em juntar essas recusas a um conteúdo professado, e talvez seja isso o que o texto-base quis dizer ao chamar-se religiosa na relação que propõe, e sem sacerdotes e sem milagres prometidos.

    O que permanece aberto

    Primeiro: a comparação com o espiritismo é a mais importante para a recepção da doutrina no Brasil, e este capítulo a fez a partir das teses gerais das duas doutrinas; um estudo comparativo sério exigiria ler as obras fundadoras do espiritismo com a mesma atenção que esta obra deu ao Livro dos Fundamentos. Segundo: a relação do Unismo com o cristianismo depende muito de como se lê a preferência da questão 65; se ela for adotada como doutrina, o Unismo passa a ser uma forma de panenteísmo que o cristianismo clássico rejeitaria, e a citação de “sois deuses” mudaria de expressão para reivindicação; o texto-base a manteve como interpretação, e esta investigação recomenda que continue assim. Terceiro: a doutrina não diz nada sobre as religiões de matriz africana, que são parte da vida religiosa do país em que nasceu; o silêncio é respeitoso, mas uma comunidade do Unismo terá de encontrar o modo de conviver com elas, e a questão 127 dá o princípio, não a prática.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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