Pular para o conteúdo
Unismo
Aa
Tamanho do texto
Tema
Contraste

As escolhas ficam guardadas neste navegador e valem para todo o site.

Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro VI · O diálogo

Livro VI · O diálogo

26.É religião? É filosofia?

Questões investigadas: 3 — Ver também: 4 · 125 · 127 · 148 · 159 · 168

Ouvir

Verificando a narração…

Trechos

    “Isto é uma religião?” é a terceira pergunta do Livro dos Fundamentos, e a resposta, examinada no capítulo 1, foi afirmativa e delimitada: religiosa na relação que propõe, sem sacerdotes e sem milagres prometidos. Este capítulo volta à pergunta com os instrumentos que os capítulos anteriores forneceram e com as definições que a filosofia e as ciências da religião deram ao termo, e acrescenta a pergunta gêmea: é uma filosofia? A resposta será que o Unismo pertence a uma família antiga e pouco povoada, a das religiões filosóficas, e que o seu modo próprio de habitar essa família é professar sem demonstrar e recusar-se a fazer da profissão um poder.

    1. O que faz de algo uma religião

    As definições de religião dividem-se, grosso modo, entre as que partem do conteúdo e as que partem da função. Pelo conteúdo, uma religião afirma uma realidade que transcende a experiência comum e organiza a vida em relação a ela; pela função, uma religião é um sistema de crenças e práticas relativas ao sagrado, separado do profano, que reúne os seus adeptos numa comunidade. Uma definição influente do século XX chamou religião à preocupação última de uma pessoa, aquilo que a orienta incondicionalmente, seja ou não um deus; outra, mais recente, descreveu uma atitude religiosa que não exige deus algum, e que consiste em crer que a vida humana tem valor objetivo e que o universo tem, em si, uma ordem e uma beleza que pedem reverência.

    O Unismo é religião pelas definições de conteúdo que pedem uma realidade transcendente e uma vida orientada por ela, e não pelas que exigem seres sobrenaturais pessoais com quem se interage, porque não atribui ao criador personalidade nem capacidade de resposta (questões 67 e 142): afirma um fundamento transcendente (proposição 6), um horizonte que ultrapassa as condições atuais (proposição 7) e uma relação de manifestação entre as vidas e uma realidade consciente una (proposição 1), e propõe orientar a vida por essa compreensão (questão 84). É religião pela definição da preocupação última e pela da atitude religiosa sem deus, porque o fundamento que professa é, para o adepto, aquilo diante de que o desejo de dispor de tudo encontra o seu limite (questão 141). É menos claramente religião pelas definições de função: não tem sagrado separado do profano, porque a dignidade está em toda parte e nenhum rito é necessário (questão 145); não tem sacerdócio (questão 3); e a comunidade é possível, não necessária, porque as práticas são voluntárias (questões 3 e 145) e o pertencimento se conserva mesmo no afastamento das atividades comuns (questão 147). O texto-base sabe disso e o diz na questão 3: quem adotar outra concepção do que constitui religião poderá divergir da classificação.

    A classificação é, na leitura aqui proposta, correta, e pode ser precisada: o Unismo é uma religião de relação e não de instituição. O que o torna religioso é a direção do ato (questão 142) e a orientação da vida (questão 84), não a pertença a um corpo ritual. Isso tem uma consequência prática que o capítulo 23 preparou: uma comunidade do Unismo é um instrumento da doutrina, e nunca a sua condição; a religião existe onde alguém vive em relação ao fundamento professado, dentro ou fora das atividades comuns (questão 147).

    2. A forma filosófica

    O caráter filosófico está, segundo a Introdução, no exame dos conceitos, dos argumentos e das objeções, e a forma de perguntas e respostas é declarada uma forma de exposição, não uma transcrição. Há uma tradição em que a filosofia foi uma maneira de viver e não apenas uma disciplina: as escolas antigas propunham uma física, uma lógica e uma ética como preparação para uma vida boa, e os seus textos eram exercícios espirituais tanto quanto tratados. Há também sistemas modernos que terminam numa beatitude e que foram lidos, por isso, como religiões sem culto. E há tradições orientais em que a fronteira entre escola filosófica e religião raramente foi traçada com nitidez. O Unismo pertence a essa família: uma metafísica exposta com argumentos, uma ética que dela se distingue, e um conjunto de práticas voluntárias que fazem da compreensão uma vida.

    O que o distingue, dentro da família, é o estatuto que atribui às suas próprias teses. As escolas antigas, com a exceção dos céticos, ensinavam a sua física como verdade; os sistemas modernos a demonstravam. O Unismo professa. A palavra é escolhida com precisão pelo texto-base e repetida em toda parte: a unidade é professada, o horizonte é professado, o criador é professado; nada é demonstrado, e a doutrina o diz na questão 9, na questão 20, na questão 157 e na questão 160. Uma filosofia que professa sem demonstrar seria, para muitos, uma contradição; uma religião que demonstra seria, para outros, uma teologia natural. O Unismo escolheu ser as duas coisas e nenhuma: filosofia no método, religião no estatuto.

    Há um precedente para essa posição, e ele ajuda a vê-la. Um filósofo do século XX chamou fé filosófica à convicção que não se apoia em revelação nem em prova, que se sabe historicamente situada, que permanece aberta à comunicação com quem crê de outro modo, e que se distingue da fé de revelação por não reivindicar autoridade objetiva. A adesão refletida da questão 164 é uma fé filosófica nesse sentido, com uma diferença que o Unismo faz questão de marcar: ele afirma um conteúdo determinado (as dez proposições), e não apenas uma abertura ao transcendente. Outro precedente é a ideia de que certas afirmações (a liberdade, a imortalidade, Deus) não podem ser conhecidas, mas podem ser postuladas porque a vida moral as exige. O Unismo está mais perto e mais longe: mais perto, porque professa sem conhecer; mais longe, porque não diz que a moral exija a metafísica (questão 4). As suas proposições metafísicas não são postulados da razão prática; são opções de sentido, assumidas com razões, sem que a moral as exija.

    3. Professar e não dominar

    O traço que mais define o Unismo como religião é a relação entre o que professa e o que se permite fazer com a profissão. Muitas religiões extraem da sua metafísica uma autoridade: quem conhece o fundamento tem algo a dizer sobre a vida dos outros. O Unismo corta essa passagem em todos os pontos em que ela poderia ocorrer. Ninguém fala por Deus por ser Deus na raiz (questão 65); a experiência de unidade não é conhecimento (questão 9); a lembrança de outra vida não obriga ninguém (questão 39); a notícia do além não tem autoridade por si (questão 83); o grau espiritual de ninguém pode ser estabelecido (questão 71); o dirigente e quem quer que tenha idealizado a doutrina ou fundado a comunidade respondem como todos (questão 149); a doutrina pode estar errada (questão 160). O resultado é uma religião cuja metafísica não gera poder. Os capítulos anteriores chamaram a isso tese de baixa interferência e reserva epistêmica; o nome que aqui se propõe para reunir tudo é este: o Unismo é uma religião desarmada. Ela tem convicções e não tem meios de as impor, por decisão do seu próprio texto fundador.

    Isso responde, ao menos em parte, à suspeita mais comum diante de qualquer doutrina nova: a de que se trata de mais um instrumento de captura. Uma doutrina pode ser usada contra o seu texto, e o texto-base sabe disso (questão 156) e oferece, ele próprio, recursos a quem quiser resistir ao seu uso abusivo. O capítulo 23 recolheu nove garantias e sete sinais de deriva; todos estão no texto. Quem se sentir capturado por uma comunidade do Unismo terá, no Livro dos Fundamentos, os argumentos para sair.

    4. A ética da comparação

    O Unismo será comparado, e já foi neste livro, com o espiritismo, com o Vedanta, com o cristianismo, com o cosmopsiquismo. Convém dizer o que a doutrina exige de quem a compara e de quem a lê comparando. Do lado da doutrina, a questão 159 fixa a regra: oferecer as suas razões dentro da pluralidade, sem converter diferença de crença em desigualdade entre pessoas. Do lado do leitor, da questão 11 decorre a outra: uma objeção deve alcançar a tese, e não a caricatura. As duas caricaturas mais prováveis são a de um espiritismo sem espíritos e a de um misticismo de unidade sem exigência. A primeira falha porque o Unismo não afirma justamente o que faz o espiritismo ser o que é, a sobrevivência do espírito com identidade e memória (questão 78), e nega que um mesmo sujeito percorra as existências em fila (questão 47; capítulo 25); a segunda falha porque a unidade, no Unismo, não relaxa nenhuma exigência e endurece várias (capítulos 14 e 15). Uma comparação honesta encontrará a doutrina onde ela está: numa posição pouco ocupada, que combina uma metafísica da unidade com uma ética da separação das pessoas, e que se proíbe de usar a primeira contra a segunda.

    Há, enfim, o nome. A doutrina chama-se pela sua tese, e não por um fundador: Unismo, de unidade. A escolha é coerente com a questão 149 e com a circulação anônima do texto-base, e tem um custo: o sufixo sugere uma ideologia, e o texto-base prefere chamar-se doutrina. Esta obra usou o nome Unismo por ser o público, e recomenda que se leia nele apenas o que a questão 20 autoriza: uma tese sobre o que somos, não um jeito novo de dizer que somos parecidos.

    O que permanece aberto

    Primeiro: uma religião sem ritos obrigatórios, sem sacerdócio e sem sagrado separado tem, historicamente, dificuldade em durar como comunidade; o espiritismo brasileiro, sem sacerdócio nem ritos obrigatórios há mais de um século e meio, mostra que a dificuldade não é impossibilidade, mas durou apoiado em centros e federações, e a sociologia sugere que as instituições religiosas se sustentam pelo que o Unismo recusa; a doutrina terá de descobrir se uma religião de relação pode ter história. Segundo: a fé filosófica é uma atitude minoritária e exigente, e uma doutrina que a exige de todos os seus adeptos pode acabar tendo poucos; o texto-base parece aceitar esse preço na questão 6, ao pedir atenção e responsabilidade; de números não fala. Terceiro: a distinção entre religião de relação e religião de instituição é desta investigação, e um crítico pode sustentar que toda religião de relação, ao durar, se torna instituição, e que o Unismo apenas adiou o problema que o capítulo 23 tenta enfrentar.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

    Sobre a obra e sumário · PDF · EPUB · O Livro dos Fundamentos