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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro VII · O exame

Livro VII · O exame

27.As objeções que permanecem, reexaminadas

Questões investigadas: 160 · 164 — Ver também: 157 · 158 · 159 · 161 · 162 · 163 · 11

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Verificando a narração…

Trechos

    Um leitor atento fecha o livro e pergunta, nas palavras com que o texto-base abre o seu capítulo 21: se cada pessoa é um sujeito com experiência própria, como pode haver uma só consciência? E, se a moral se sustenta sem a metafísica, para que ela? O texto-base diz que as objeções desse capítulo não são de adversários, mas do próprio livro contra si mesmo. Este capítulo retoma as oito objeções à luz de tudo o que a investigação encontrou, dá a cada uma um veredito, e acrescenta as objeções que a própria investigação levantou e que o texto-base não formulou. O critério é o da questão 11: uma objeção cumpre a sua função quando pode alterar o pensamento; este capítulo diz, para cada uma, o que ela alterou.

    1. As oito objeções do texto-base

    Primeira, a de que “consciência fundamental” nomeia apenas o que ignoramos (questão 157). O capítulo 4 confirmou que a expressão nomeia uma tese com conteúdo, distinguível de duas rivais, e que a paridade de encargos entre as concepções é real. Veredito: respondida. O que a objeção alterou foi a exigência de contraste, que o texto-base cumpre e que esta obra usou em toda parte.

    Segunda, a de que muitos sujeitos contradizem uma consciência una (questão 158). O capítulo 4 mostrou que a contradição formal se desfaz pela distinção entre unidade numérica e unidade de acesso, e pela observação de que a manifestação não é identidade; mostrou também que a explicação da manifestação continua devida, que a hipótese das fronteiras de acesso dá a forma de uma resposta e não a resposta, e que a leitura da consciência como natureza desloca a dificuldade sem a eliminar. O capítulo 24 acrescentou a objeção da mineidade mínima, que atinge justamente essa leitura, e mostrou que a disputa tem cerca de oitocentos anos. Veredito: aberta, e mais bem formulada do que antes. É a objeção que decide o destino filosófico da doutrina, e o texto-base tem razão em dizê-lo.

    Terceira, a de que a metafísica é supérflua se a moral se sustenta sozinha (questão 159). O capítulo 3 aceitou a resposta do texto-base e a completou: a unidade não funda a moral, mas altera o seu alcance em três lugares, a extensão a quem não retribui, a motivação não prudencial e a esperança diante da morte. O Livro IV confirmou que nenhum dos dez princípios morais que este livro atribui ao Unismo depende da metafísica. Veredito: respondida em parte. A metafísica não é supérflua para o sentido; é supérflua para a obrigação, e o texto-base nunca disse outra coisa.

    Quarta, a de que a doutrina pode estar errada (questão 160). Não é bem uma objeção; é uma admissão, e o capítulo 2 a levou a sério ao mostrar que a doutrina é refutável no plano dos conceitos, ainda que não no da experiência. O que faltava dizer, e a questão 160 diz, é que uma tese que conserve a mesma confiança qualquer que seja a força das objeções deixou de se submeter ao exame. Veredito: aceita como regra. O que ela alterou foi a forma desta obra, que termina cada capítulo com o que permanece aberto.

    Quinta, a de que a ciência do cérebro pode ser ignorada (questão 161). O capítulo 3 fixou o critério da compatibilidade e a proibição de explorar a lacuna do problema difícil; o capítulo 4 examinou o uso das analogias empíricas e concluiu que o texto-base toma delas “uma forma” (questão 48) e declara o que acrescenta; e registrou o custo, que é a dependência da hipótese de individuação em relação a teorias em disputa. Veredito: respondida quanto ao método, aberta quanto ao resultado. A doutrina não nega nada estabelecido, e depende de coisas não estabelecidas.

    Sexta, a de que não há progresso sem ordem (questão 162). Os capítulos 7 e 8 tornaram a objeção mais precisa: sem sucessão, é preciso outro sentido de aquisição; os capítulos 7 e 8 propuseram duas hipóteses, a ordem de pressuposição e a conservação como disposição, e mostrou que a segunda perde a singularidade e a primeira esvazia a palavra processo. Veredito: aberta. As quatro exigências da questão 162, consolidadas em sete no capítulo 7, são uma lista de verificação, não uma solução.

    Sétima, a de que um bem futuro pode justificar um sacrifício presente (questão 163). O capítulo 13 mostrou que a resposta negativa do texto-base decorre de quatro recusas convergentes, e propôs a regra de não instrumentalização do sofrimento como quarta regra de leitura. Veredito: respondida com firmeza. É a objeção em que a doutrina está mais segura, porque a resposta depende da dignidade e não da metafísica.

    Oitava, a de que respostas incompletas invalidam a adesão (questão 164). O texto-base responde que a importância de uma insuficiência depende do lugar que ocupa, e que ignorar um pormenor sobre a prática comunitária é diferente de não explicar a multiplicidade numa consciência una. Esta investigação concorda com a graduação e enfrenta, a seguir, a pergunta que deixou pendente desde o capítulo 2: se a adesão refletida é uma atitude estável.

    2. A estabilidade da adesão refletida

    Crer com razões que se reconhecem insuficientes para obrigar os demais é a atitude que o texto-base chama de adesão refletida, e o capítulo 2 a situou entre a crença racional kantiana e o direito de crer jamesiano. A objeção é a de que a atitude é instável: ou a razão converte a insuficiência em suspensão do juízo, e a adesão se desfaz, ou a adesão resiste às razões, e deixa de ser refletida. Há uma tradição, formulada no século XIX, segundo a qual é sempre errado crer com evidência insuficiente; e há a resposta de que, em questões vivas e inevitáveis, esperar pela evidência é já decidir.

    Esta investigação propõe que a resposta depende de três condições, todas presentes no texto-base. A primeira é que a adesão seja uma aceitação e não uma pretensão de conhecimento: a questão 9 define a crença como aceitar uma proposição como verdadeira, e a adesão refletida aceita a proposição como verdadeira sem pretender saber que o é, o que é mais do que adotar uma hipótese de trabalho, que se usa sem se aceitar, e menos do que conhecer. A segunda é que a insuficiência das razões afete o grau de confiança e a linguagem: a questão 160 exige que a confiança não seja a mesma qualquer que seja a força das objeções, e o preâmbulo do capítulo 2 do texto-base pede que a segurança da linguagem corresponda à força do que a sustenta. A terceira não responde à objeção, mas ao que a torna urgente: que a adesão oriente uma vida sem gerar poder, porque a reserva epistêmica impede que a crença insuficiente se converta em autoridade sobre alguém, o que é o modo pelo qual as crenças insuficientes costumam tornar-se perigosas. Sob essas condições, a adesão refletida não é contraditória; se é estável, isso depende de a segunda condição ser cumprida de fato, e a comparação mais próxima não é a do cientista com o seu programa, que a experiência pode corrigir, mas a de quem confia em alguém que pode desiludi-lo. É uma atitude exigente, e por isso pouco comum. O que a desestabiliza não é a razão; é a preguiça de manter a insuficiência à vista, e contra ela o texto-base só tem a exigência de que se mantenha. Veredito da oitava: respondida como atitude, sob essas condições; a estabilidade da atitude não se demonstra, cumpre-se.

    3. As objeções que esta investigação acrescenta

    Nona, a objeção da baixa interferência. Uma tese que deixa intactos todos os fatos morais, psicológicos e jurídicos da vida comum não pode ser confirmada por nada que aconteça; aderir a ela seria aderir a algo que não faz diferença. O capítulo 1 a identificou e o capítulo 10 a viu na sua forma mais aguda: mesmo que a cosmologia esteja errada, os bens que ela reconhece teriam ocorrido. A resposta é que a tese faz diferença ao sentido, ao alcance e à esperança, e que “sentido” não é nada; mas a resposta concede o essencial: o Unismo não pode reivindicar êxito explicativo, e a sua metafísica é uma interpretação da vida, não uma explicação dela. A concessão é inevitável e honesta. Veredito: respondida com essa concessão, que pede apenas que se mantenha à vista.

    Décima, a objeção da distribuição. Se o fundamento vive tudo o que é vivido, em cada fronteira e como de cada alguém (questão 47), sem que a doutrina exija, nem exclua, um campo em que tudo se reúna (questão 16), em que sentido ele é consciente e não apenas condição da consciência? Os capítulos 4, 8 e 10 a encontraram por três lados. A leitura da consciência como natureza responde ao preço de admitir dois usos de “consciente”, e a hipótese da consciência que se reconhece em cada centro (capítulo 10) usa a palavra reconhecimento de modo que a linguagem comum não conhece. Veredito: aberta, e a mais difícil das novas.

    Décima primeira, a objeção do processo sem sujeito. A doutrina fala de um processo de aperfeiçoamento, e a questão 51 fixa que a palavra é usada em sentido próprio, uma contribuição real das experiências cuja ordem permanece indeterminada, e não uma comparação com um ideal estático: “Comparar não é mudar; e aperfeiçoar-se exige que algo mude”. É justamente por isso que a objeção tem alcance: se o fundamento não tem perspectiva e a ordem não é a das datas, o que muda, e para quem? O capítulo 10 propôs ler a finalidade também como critério do que conta como avanço, sem que essa leitura substitua a orientação real que o texto-base afirma (questões 69 e 162); a leitura salva a coerência, mas não responde à pergunta, e a questão 51 não permite esvaziar a palavra. Veredito: aberta, e de fundo; ao texto fundador só se pede que as questões 69 e 162 remetam ao sentido fixado na questão 51.

    Décima segunda, a objeção da pessoa e do humano. A dignidade foi apoiada na condição pessoal humana, a unidade foi afirmada das existências humanas, e a extensão a outros seres foi fundada em razões próprias; a doutrina não disse se “pessoa” é por definição humana. Os capítulos 3 e 19 a formularam e ela está entre as propostas ao texto fundador. Veredito: aberta por falta de precisão, não por dificuldade de fundo.

    Décima terceira, a objeção da religião sem promessa. O capítulo 11 mostrou que o Unismo não pode prometer ao moribundo o reencontro com quem amou nem ao enlutado a providência, e que consola pela presença e pela verdade do vivido, e não pela promessa (questões 27, 68 e 81). A objeção é a de que uma religião que recusa a promessa falha com quem mais precisa de consolo. A resposta do texto-base é a presença em lugar da promessa (questões 81 e 147), e a regra do luto formalizou o porquê. Veredito: respondida como escolha, e a escolha tem um preço que a doutrina paga conscientemente.

    Décima quarta, a objeção do humanista. Tudo o que há de bom na doutrina sobrevive sem a metafísica; por que não a abandonar? É, depois da terceira e da nona, mais uma objeção dita por quem está fora; a terceira perguntava para que serve a metafísica, esta pergunta por que não a abandonar, e a resposta é a mesma: a metafísica é uma opção de sentido, não uma necessidade da moral, e a doutrina a oferece a quem a queira (questão 4). Veredito: respondida, com a admissão de que quem não a quiser não perde nada do que a doutrina exige, e perde algo do que ela oferece.

    4. O programa

    Recolhendo, a doutrina tem duas objeções respondidas com firmeza (a primeira, a sétima), seis respondidas com concessões (a terceira, a quinta, a nona, a décima terceira, a décima quarta e, por ser antes uma admissão aceita como regra, a quarta), uma respondida como atitude (a oitava, com a adesão refletida) e cinco abertas (a segunda, a sexta, a décima, a décima primeira, a décima segunda). Das abertas, uma é de precisão e pode ser resolvida por quem responde pelo texto fundador (a décima segunda), e quatro são de fundo e formam o programa de investigação da doutrina: uma teoria da manifestação que explique como uma natureza consciente se apresenta em sujeitos (segunda e décima), e uma teoria da integração que explique como o vivido se conserva sem memória e sem perder de quem era, e o que muda, e para quem, numa ordem que não é a das datas (sexta e décima primeira). O texto-base já sabia disso na questão 167, e esta investigação não fez mais do que confirmar o diagnóstico com outros instrumentos. O que ela acrescenta é a observação de que a segunda e a décima objeções são a mesma: se se souber o que faz de uma região do fundamento um sujeito, saber-se-á também em que sentido o fundamento é consciente; se o vivido se conserva nele, e em que ordem, é pergunta que essa teoria não responde por si. O Unismo tem, no mínimo, duas dívidas, a da manifestação e a da integração; a hipótese de que sejam uma só é desta investigação, e o texto-base, que as separa na questão 167, não a formula.

    O que permanece aberto

    Neste capítulo, tudo o que foi declarado aberto; e mais uma coisa. Uma doutrina cujo programa de investigação depende de uma teoria da consciência que a ciência e a filosofia ainda não têm pode ver o programa cumprido contra si: a teoria que vier pode mostrar que não há natureza consciente sem sujeito, e então a proposição 1 cairá. O texto-base aceita esse risco na questão 158. Aqui se nota apenas que a aceitação do risco é, ela própria, uma das razões de credibilidade da doutrina, e que uma comunidade que a esquecesse teria mudado de doutrina sem dizer.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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