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Unismo › Uma Raiz, Muitas Vidas › Livro III · A liberdade e o mal

Livro III · A liberdade e o mal

13.O sofrimento e os limites da explicação

Questões investigadas: 85 · 86 · 87 · 88 · 89 · 90 · 91 · 92 · 163 — Ver também: 47 · 69 · 104

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Verificando a narração…

Trechos

    Uma criança nasce com uma doença que a acompanhará pela vida inteira; nenhuma escolha sua ou de seus pais a produziu. O texto-base diz que toda doutrina que fala de aperfeiçoamento é obrigada a passar por esse quarto de hospital, e que o que disser ali será a medida da sua honestidade. Este capítulo acompanha o Unismo até lá. A doutrina afirma que a experiência das diversas condições humanas participa de um aperfeiçoamento; é exatamente o tipo de afirmação que, na história das religiões, serviu a justificações indefensáveis do sofrimento. O que se verá é que o texto-base conhece esse perigo e constrói contra ele, nas questões 87 a 92, uma recusa sistemática de justificar o sofrimento, cujo alcance e cujo preço este capítulo mede.

    1. Quatro coisas que não são a mesma

    A questão 85 separa sofrimento, limitação, injustiça e mal moral. Sofrimento é padecimento vivido; limitação é restrição de possibilidades, que pode existir sem ser sofrida; injustiça é desconsideração do que é devido às pessoas por sua dignidade; mal moral é a violação censurável dessas exigências, por ação ou omissão, consideradas as condições do agente, e inclui a negligência, porque a falta moral não depende sempre do propósito de ferir. As noções podem coincidir e não se equivalem: uma perda pode doer sem maldade de ninguém; uma distribuição injusta pode beneficiar quem nada sente; uma limitação corporal não é injustiça, mas o abandono de quem precisa de condições de participação pode sê-lo. A distinção impede dois erros simétricos: considerar toda dificuldade uma punição e reconhecer injustiça só onde há sofrimento declarado.

    A questão 86 responde que a diminuição do sofrimento evitável é razão forte para agir, mas não torna qualquer meio aceitável: seria incoerente suprimir a liberdade de alguém para que nunca se decepcionasse. Não compreender tudo, não realizar todos os projetos e precisar de outros não são faltas espirituais. E a pergunta moral adequada é o que pode aliviar, proteger e sustentar aquela pessoa, respeitando a sua participação nas decisões; o cuidado perde a finalidade quando impõe ao destinatário uma imagem de perfeição ou exige serenidade como condição de auxílio.

    2. Ninguém precisava da dor

    A questão 87 é o eixo do capítulo, e a sua resposta à pergunta “quem aprende com a dor precisava dela?” é um “não” argumentado em quatro passos. A transformação posterior, quando ocorre, mostra uma resposta construída diante de um acontecimento; não demonstra que ele fosse o único caminho, que devesse ter ocorrido ou que alguém tivesse o direito de produzi-lo. Quem sofreu abandono e se tornou atento à solidão alheia realizou algo seu, possivelmente com apoio de outros; não é mérito do abandono, e a pessoa poderia ter aprendido pelo acolhimento. Há dores sem transformação reconhecível, que desorganizam e consomem as forças necessárias à reflexão, e seria uma cobrança injusta exigir que toda pessoa ferida produzisse uma lição elevada. E o que alguém faz de uma adversidade não absolve quem a causou.

    É preciso medir o que essa questão recusa. Existe uma teodiceia, com raízes antigas e uma formulação influente no século XX, segundo a qual o mundo é um “vale de formação de almas”: o sofrimento existe porque só nele se desenvolvem coragem, compaixão e fidelidade, e um mundo sem dor seria um mundo sem virtude. Uma doutrina que afirma que “a experiência das diversas condições participa de um processo de ampliação da compreensão e de aperfeiçoamento moral” (questão 165) parece feita para adotar essa teodiceia. O Unismo a recusa por implicação direta, e a recusa é consistente com o restante: a questão 42 já dissera que compreender melhor uma dor nunca a torna necessária; a questão 69 dissera que aprender a partir de algo e afirmar que esse algo existiu para ensinar são juízos diferentes. A participação das experiências no aperfeiçoamento é afirmada; a necessidade de cada sofrimento é negada. A diferença lógica é a mesma que separa “a vacina foi descoberta por causa da epidemia” de “a epidemia era necessária para a vacina”. A primeira é história; a segunda é uma justificação, e o Unismo não a faz.

    Esta investigação propõe uma distinção que o texto-base pratica sem nomear: entre sentido encontrado e sentido atribuído. O sentido que a pessoa atingida encontra na sua própria dor é dela, é uma realização, e merece ser honrado. O sentido que outra pessoa atribui à dor alheia, dizendo-lhe para que serviu, é uma apropriação, e a doutrina adverte contra ela. A regra prática decorre daí: cabe a quem sofreu dizer o que a sua dor lhe ensinou; ninguém pode dizer-lhe o que ela devia ter ensinado. A questão 92 dirá o mesmo pelo lado do horizonte: anunciar que uma consciência mais ampla se beneficiará da dor de alguém pode tratar a sua vida como recurso para um fim que ela não reconhece.

    3. Escolhida e imposta; paga e não paga

    A questão 88 distingue a dificuldade assumida em vista de um bem reconhecido por quem a enfrenta, cujo sentido vem da finalidade examinável e da participação na escolha, do sofrimento imposto. A participação precisa ser real: uma declaração de consentimento não resolve tudo quando há dependência, ameaça ou impossibilidade prática de recusar; quem aceita uma exigência para não perder proteção básica pode estar suportando uma imposição, embora a descreva como escolha. Nenhum dirigente espiritual pode transformar essa distinção em autorização para provocar sofrimento com a promessa de amadurecimento; não lhe pertence decidir que outra pessoa precisa ser humilhada ou submetida a provas. Mesmo a dificuldade voluntária permanece revisável.

    A questão 89 responde à pergunta mais antiga das doutrinas da retribuição: quem sofre está pagando por alguma coisa? Não há nos fundamentos qualquer autorização para essa inferência. A dor não demonstra merecimento, escolha em outra existência ou posição inferior; a ausência de memória de outras existências não é licença para inventar uma acusação impossível de examinar. Uma doença não é medida de valor moral; a pobreza não demonstra menor aperfeiçoamento; a violência sofrida não revela consentimento profundo da vítima. A expressão “cada um recebe o que merece” ignora tanto os danos não escolhidos quanto os benefícios obtidos sem mérito; e, se tudo o que existe fosse distribuição espiritual adequada, a própria exigência de justiça se tornaria incompreensível.

    Este é o ponto em que o Unismo se separa, de modo mais nítido, de toda doutrina das existências múltiplas organizada por uma lei de causa e efeito moral, seja o carma das tradições indianas, seja a lei de causa e efeito, com as suas provas e expiações, do espiritismo kardecista. Nelas, o sofrimento presente tem, ao menos em parte, uma explicação em ações passadas, próprias ou de vidas anteriores. No Unismo, essa inferência não recebe autorização: não porque os fundamentos a declarem falsa, mas porque é inverificável e porque, aplicada a quem sofre, faz recair sobre a pessoa atingida o dever de justificar a própria vulnerabilidade (questão 89). O texto-base coincide, sem o dizer, com a posição do livro de Jó contra os amigos de Jó: os amigos sustentam que ele sofre porque pecou; o livro os declara errados. O Unismo está do lado de Jó. O capítulo 25 medirá as consequências dessa escolha para a comparação com as tradições.

    4. O sofrimento e o criador

    A questão 90 enfrenta o problema do mal na sua forma clássica e o desarma por um recurso simples: faz depender o alcance do problema dos atributos efetivamente afirmados. A existência do sofrimento é uma dificuldade decisiva para determinadas concepções do criador: se alguém sustenta que o princípio criador conhece todo sofrimento, pode impedi-lo sem perda de qualquer bem e quer impedi-lo, deve explicar por que o sofrimento existe. A doutrina não estabeleceu esse conjunto de atributos; por isso não pode apresentar uma contradição resolvida nem uma defesa de um governo perfeito dos acontecimentos. Mas a reserva não é abrigo: quem acrescentar providência, bondade ilimitada ou domínio integral assumirá as dificuldades correspondentes, e não é coerente empregar esses atributos para oferecer consolo e abandoná-los quando se examina a sua relação com o mal.

    A última frase fixa um princípio de simetria que esta investigação adota como critério do capítulo, e que não é uma novidade do Unismo, mas a forma clássica do problema do mal aplicada por uma doutrina a si mesma: os atributos que se usam para consolar são os mesmos que se devem defender diante do mal. Quem consola o enlutado dizendo que “Deus sabe o que faz” assume, com a mesma frase, o encargo de responder pela mesma providência diante da criança do quarto de hospital; não é uma acusação à fé de quem consola, é a coerência que a questão 90 exige de qualquer atributo. A doutrina, que não diz a frase, não contrai o encargo. O preço, já visto no capítulo 11, é não poder oferecer o consolo da providência.

    Vale situar a posição diante das respostas conhecidas. As teodiceias clássicas explicam o mal pela liberdade das criaturas, pela privação de ser que o mal seria, pela necessidade de um mundo ordenado ou pela formação das almas; uma corrente recente sustenta que não estamos em posição de conhecer as razões divinas e que a nossa ignorância não é evidência contra elas. A antiteodiceia, por sua vez, recusa o próprio projeto: o personagem do romance russo que devolve o bilhete de entrada num mundo onde uma criança foi torturada, e o filósofo que declarou o fim das teodiceias diante do sofrimento inútil do século XX, sustentam que justificar o sofrimento é uma segunda ofensa à vítima. O Unismo aproxima-se da antiteodiceia sem adotar a sua tese: não declara ilegítimo o projeto de compreender a relação entre criação e sofrimento; declara que não dispõe das premissas que o tornariam possível, conserva a pergunta como tarefa (questão 167) e, enquanto ela ficar sem resposta, recusa justificar o sofrimento pelo fundamento. A questão 167 confirmará que a relação entre criação e sofrimento é “uma insuficiência explicativa real”, e o texto-base prefere a insuficiência declarada à justificação. A reserva é mais rigorosa do que atribuir a cada tragédia uma finalidade desconhecida, como diz a questão 90, e tem um custo religioso: o adepto que sofre não é consolado com razões; é consolado, como o capítulo 11 mostrou, pela presença e pela verdade do vivido, e não pela promessa.

    Há, contudo, uma consequência que a questão 47 já afirma e não desenvolve do lado do sofrimento, e um passo além dela que a preferência da questão 65 torna disponível. A consequência: se tudo o que é vivido por alguém é vivido pela consciência fundamental, no centro em que ocorre e como daquele alguém (questão 47), então o fundamento sofre em cada sofrimento, no centro em que ele ocorre; isso é doutrina, não hipótese. O passo além: se, como prefere a questão 65, “aquilo que em cada pessoa é consciente é, na raiz, a própria realidade divina”, então é o criador que sofre em cada sofrimento; isso fica no estatuto de hipótese. Uma teologia do século XX chegou a algo parecido, ao dizer que só um Deus que sofre pode ajudar, e a filosofia do processo descreveu o divino como o companheiro de sofrimento que compreende. O registro vem com uma advertência dupla: nem a consequência nem o passo explicam o sofrimento, e nenhum dos dois deve ser usado para consolar, porque a dor da criança não diminui por ser também a do fundamento; e o texto-base, com razão, não deu o passo seguinte nem atribuiu à afirmação função consoladora.

    5. A liberdade explica pouco; o bem futuro não justifica

    A questão 91 dá à explicação pela liberdade o seu lugar exato: ajuda a identificar a autoria de certos males; não demonstra que a possibilidade de causar qualquer dano seja necessária a toda liberdade significativa, porque escolher entre bens também é escolher; não esclarece perdas sem deliberação humana nem a exposição de quem não participou da decisão danosa; e contém uma dificuldade interna, a de que a liberdade de quem agride destrói a de quem é agredido, de modo que a contenção do agressor pode ampliar a liberdade efetiva. Esta última observação será decisiva no capítulo 15 e nos casos difíceis: no Unismo, proteger é também uma forma de liberar.

    A questão 92 recusa que um bem futuro justifique todas as dores passadas; a questão 163 recusa que justifique sacrificar alguém agora. Os argumentos são paralelos. Sustentar que todos os acontecimentos eram necessários exigiria conhecer as alternativas e estabelecer que nenhuma permitiria igual compreensão com menos dano, e a doutrina não tem esse conhecimento. A dignidade não é uma recompensa reservada ao estado final; pertence à pessoa presente e limita o que pode ser feito em nome de qualquer finalidade. Sacrificar a saúde de um trabalhador “pelo bem da obra” não se torna aceitável porque a obra é espiritual. A unidade não transfere a uma totalidade o poder de consentir em lugar da pessoa atingida. E, quando o sentido falta, a obrigação de não abandonar permanece.

    Esta investigação dá a esse conjunto o nome de regra de não instrumentalização do sofrimento, e a toma como a quarta das regras de leitura que adota, ao lado da conjunção unidade-dignidade, da exclusão das leituras lesivas e do primado da pergunta; os nomes são desta investigação, não do texto-base. Ela pode ser enunciada em uma frase: nenhum sofrimento pode ser tratado, por outra pessoa, como meio, prova, pagamento ou lição. As quatro palavras correspondem às quatro recusas do capítulo: meio (questão 163), prova de valor (questão 89), pagamento (questão 89) e lição (questão 87).

    O que permanece aberto

    Primeiro: a relação global entre criação, sofrimento e aperfeiçoamento permanece, nas palavras da questão 167, uma insuficiência explicativa real; o Unismo não a preencheu e a conserva como tarefa, e esta investigação apenas mostrou que essa reserva é coerente e tem um preço. Segundo: a tensão entre afirmar que a experiência das diversas condições participa do aperfeiçoamento e negar que qualquer sofrimento seja necessário é resolvida pelo texto-base ao situar o ganho na resposta da pessoa, e não na condição sofrida; mas isso torna o “aperfeiçoamento” dependente das realizações dos centros, e a própria questão 42 formula a dificuldade, ao dizer que falta explicar como os centros participam da aquisição sem que a descrição apenas atribua ao fundamento o aprendizado conhecido nas pessoas; um crítico perguntará, então, para que serve a afirmação da participação. Terceiro: a afirmação de que o fundamento vive cada sofrimento no centro em que ocorre (questão 47), e o passo que a estenderia ao criador, são perigosos, porque a tentação de convertê-los em consolo é grande; se a doutrina um dia der o passo, terá de fazê-lo com a proibição expressa de usá-lo como resposta a quem sofre.

    Da obra

    Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).

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