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Livro I · O estatuto das afirmações
2.Os graus da afirmação
Questões investigadas: 7 · 8 · 9 · 10 · 11 · 12 — Ver também: 52 · 160 · 164 · 166 · 167
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Verificando a narração…
Trechos
Antes de dizer qualquer coisa sobre a existência, o Livro dos Fundamentos diz com que força dirá. O segundo capítulo do texto-base, “Os graus da afirmação”, é o capítulo de que todos os outros dependem: fornece a gramática de honestidade a que todas as respostas seguintes obedecem, e sem a qual não se poderia dizer com que força a doutrina afirma o que afirma. Esta investigação adota a mesma gramática. Por isso a expõe primeiro, e a expõe com algum cuidado técnico, porque as distinções que o texto-base faz têm parentes na filosofia, e conhecê-los ajuda a ver o que o livro toma de empréstimo e o que decide por conta própria.
1. Cinco estatutos
As questões 7 e 8 distinguem quatro coisas, e a questão 12 acrescenta uma quinta. Fundamento é a proposição assumida como ponto de partida; ela pode receber razões de plausibilidade, mas não se torna conclusão por ser repetida. Consequência é a conclusão que se segue de premissas identificáveis por uma relação argumentativa que pode ser examinada; o texto adverte que não se trata do efeito de uma ação, e a distinção importa, porque a linguagem comum chama “consequência” tanto ao que decorre de um argumento quanto ao que resulta de um ato. Interpretação provisória é a maneira de desenvolver os fundamentos quando admitem mais de uma leitura coerente: adota-se uma para tornar o pensamento operável, com as razões que a favorecem e os limites que impedem torná-la obrigatória. Questão aberta é aquela para a qual os elementos disponíveis não permitem sequer uma preferência suficientemente justificada, ou cuja dificuldade permanece apesar da interpretação escolhida. Norma comunitária, enfim, é o que organiza uma convivência: horários, formas de estudo, modos de escolher dirigentes; revisável à luz dos fins, sem o estatuto da dignidade.
Esses cinco níveis não são apenas rótulos. Eles têm regras de passagem. Um fundamento não vira consequência por repetição (questão 7). Uma interpretação não vira fundamento por ser estimada (questão 154). Uma questão aberta não vira resposta por invocação do mistério (questão 8). Uma norma não vira doutrina por antiguidade (questão 154). E, no sentido inverso, uma consequência pode ser corrigida sem que o fundamento caia, porque o erro pode estar na informação ou na inferência, não na premissa (questão 7). A frase que resume a disciplina é curta: assumir não é provar; concluir não é aplicar.
Esta investigação usará os cinco níveis de modo explícito. Em cada capítulo, distinguirá o que o texto-base assume, o que conclui, o que interpreta, o que deixa aberto e o que é apenas norma comunitária; e separará de tudo isso o que ela própria acrescenta. Os acréscimos serão de dois tipos: desenvolvimentos, que prolongam uma linha do texto-base sem alterá-lo, e propostas, que sugeririam alterar o texto fundador e que, por isso, ficam fora do corpo da obra, reunidas numa lista à parte. O registro completo dos desenvolvimentos está no aparato final.
2. Crer e saber
A questão 9 oferece uma definição de trabalho: crença é aceitar uma proposição como verdadeira; conhecimento requer verdade e justificação adequada ao tipo de afirmação. O texto acrescenta, com prudência, que essas são condições necessárias, e não uma solução completa para os problemas de distinguir conhecimento, acerto casual e crença bem sustentada. Quem conhece a história da epistemologia reconhece aí a definição que remonta ao Teeteto de Platão, a crença verdadeira acompanhada de razão, e reconhece também a reserva: desde meados do século XX sabe-se que uma crença pode ser verdadeira e justificada e ainda assim acertar por acaso, o que fez a definição clássica parecer insuficiente. O texto-base não tenta resolver o problema; declara que não o resolve. Para o que ele precisa, a definição basta.
O que ele precisa é de três distinções. A primeira separa conhecer um ensinamento de conhecer o mundo: alguém pode saber com exatidão o que uma religião diz sobre a vida após a morte e não saber se é verdade. A segunda separa conhecer um argumento de conhecer as suas premissas: compreender uma dedução estabelece apenas o que se segue de premissas cuja verdade pode continuar em disputa. A terceira separa a experiência de seu significado: sentir a unidade não é saber que ela existe. As duas primeiras têm um alvo comum, que é a exposição organizada tomada por demonstração; a terceira impede que a experiência vire prova ou título de superioridade. O Livro dos Fundamentos é um texto bem organizado; a questão 9 é a sua defesa contra o efeito que essa organização produz.
Há uma quarta distinção, implícita, que esta investigação torna explícita porque será usada adiante. A adesão que o texto-base propõe não é conhecimento, mas também não é opinião: é uma crença sustentada por razões que o próprio crente reconhece insuficientes para obrigar os demais. Kant deu a essa atitude o nome de crença racional, distinguindo-a da opinião, que é insuficiente para o próprio sujeito, e do saber, que é suficiente para todos. William James defendeu, numa conferência célebre, que temos o direito de crer, em certas questões vivas e inevitáveis, além do que a evidência autoriza. O Unismo fica entre os dois, mas não onde uma primeira leitura o poria. Aproxima-se de Kant ao exigir, como a Introdução do texto-base, que a insuficiência das razões seja conservada à vista; menos, porém, do que parece, porque a crença racional kantiana é subjetivamente certa, e a questão 148 conserva a dúvida como companheira legítima da adesão. E fica distante de James, não porque este fizesse da paixão uma prova — não o faz —, mas porque James toma a impossibilidade de decidir pela evidência como licença para decidir pela vontade, e a questão 164 exige, ao contrário, que se reconheça quando a investigação enfraquece a convicção. A questão 164 chama a essa atitude “adesão refletida”, e o capítulo 27 examinará se ela é estável.
3. Coerência, verdade e fecundidade
A questão 10 estabelece que a coerência é necessária e insuficiente. O exemplo do objeto desaparecido, com duas hipóteses igualmente coerentes das quais só uma é verdadeira, ilustra que a coerência não seleciona a verdade: mais de uma hipótese pode ser internamente coerente, e só o confronto com o que se sabe decide entre elas. A tese mais forte da subdeterminação, a de descrições igualmente compatíveis com tudo o que se conhece, aparece na questão 52, não aqui. O texto tira do exemplo uma consequência: as concepções rivais (consciências independentes, causa comum, unidade consciente) precisam ser comparadas pelo que afirmam e pelo que explicam, e a ausência de contradição numa não refuta as outras.
Mais interessante é o que a questão faz com a fecundidade moral. Uma crença pode inspirar cuidado e continuar metafisicamente incerta; pode também receber usos abusivos que contradigam seus princípios ou revelem ambiguidades da própria formulação. Aqui o texto-base assume um compromisso que esta investigação tomará como régua: a doutrina responderá por corrigir uma formulação que facilite dominação, sem apresentar essa correção ética como prova de sua cosmologia. Ou seja, a doutrina responde por corrigir as formulações que tornam abusos fáceis, ainda que não os autorize. Esse encargo governará o Livro IV e, sobretudo, o capítulo 23, sobre a comunidade.
4. As objeções e o ônus da prova
A questão 11 fixa a regra do ônus: quem afirma prova; quem duvida não precisa de outra teoria para apontar a falha. A comparação com o tribunal é deliberada. Coerente com ela, o livro formula ele próprio a objeção mais forte contra si, na questão 158. E a questão acrescenta o catálogo das respostas que esse encargo admite: corrigir, restringir uma conclusão, esclarecer uma distinção ou reconhecer a insuficiência. Reafirmar não está na lista.
A questão 52 acrescenta um critério que se parece com o de Karl Popper: uma hipótese que explique qualquer coisa que aconteça, e também o seu contrário, não explicou nada. Mas o texto-base sabe que a sua metafísica não é empiricamente testável, e o diz na questão 160. Como conciliar as duas coisas? A conciliação exige dois passos. O primeiro está na própria questão 52: quando nenhuma situação concebível permite avaliar um enunciado, o seu estatuto metafísico deve permanecer explícito; o critério não proíbe a tese, proíbe que ela se apresente como explicação do que acontece. E a tese pretende explicar algo — o pertencimento no ser (questão 157) e, pela hipótese das fronteiras de acesso, a privacidade e a coexistência dos centros (questão 48) —, mas no plano dos conceitos, não dos acontecimentos. O segundo é mostrar que, ainda assim, ela é refutável no plano dos conceitos, como a questão 158 admite: não por uma observação que a refute, mas por uma demonstração conceitual que a torne impossível. Se se mostrasse que toda realidade consciente deve coincidir com um único sujeito privado e que nenhuma relação de manifestação pode articular as duas unidades, a tese cairia. A doutrina é, portanto, refutável no plano dos conceitos, ainda que não no plano da experiência. É uma posição mais fraca do que a de uma teoria científica e mais forte do que a de uma metafísica que se declare imune por definição. O capítulo 4 mostrará que esse teste conceitual está, hoje, em curso na filosofia da mente, e que o texto-base o acompanha em vez de o evitar.
5. Firmeza sem infalibilidade
Como sustentar um fundamento sem declará-lo infalível? É a pergunta que toda comunidade acaba fazendo, e a questão 12 lhe responde distinguindo identidade e verdade. Enquanto a obra permanecer esta doutrina, a unidade e a dignidade integrarão a sua identidade; isso não garante que sejam verdadeiras. Uma comunidade pode manter os fundamentos enquanto estuda objeções, revê interpretações e corrige práticas, e pode reconhecer que uma dificuldade se tornou grave o bastante para exigir reconsiderar uma premissa. O que a honestidade proíbe é chamar mudança de linguagem ao que altera o conteúdo.
O parágrafo final da questão introduz a liberdade de consciência como limite ao modo de rever e de conservar qualquer regra: ninguém adquire domínio sobre a pessoa porque ela ingressou numa comunidade, e uma doutrina capaz de orientar a vida deve poder ser examinada por quem a vive sem que a própria pergunta lhe custe a dignidade. Esta investigação lê aí uma consequência da dignidade que tomará como terceira regra de leitura, ao lado da conjunção unidade-dignidade e da regra de interpretação que exclui leituras lesivas: a regra de que a pergunta é sempre permitida. O texto-base não a inclui na identidade da doutrina, que a questão 12 restringe à unidade e à dignidade; tomá-la como regra de leitura é decisão desta investigação, e vale como tal. Ela terá consequências extensas no Livro V.
6. O que a gramática permite e o que proíbe a esta investigação
Uma obra que se propõe aprofundar filosófica e religiosamente uma doutrina e ampliar a sua moral corre dois riscos. O primeiro é completar o que o texto-base deixou aberto, preenchendo lacunas com teses de gosto próprio e apresentando o resultado como Unismo. O segundo é diluir o que o texto-base afirma, tratando fundamentos como opiniões para tornar a doutrina mais palatável. A gramática dos cinco estatutos protege contra ambos. Esta investigação poderá propor interpretações e hipóteses, e as proporá; poderá derivar desdobramentos morais, e os derivará em abundância; poderá comparar a doutrina com filosofias e religiões, e o fará em três capítulos. O que não poderá é mudar o estatuto de uma afirmação do texto-base: uma questão aberta permanecerá aberta mesmo que aqui se prefira uma resposta; um fundamento permanecerá fundamento mesmo que a sua justificação pareça fraca a quem o examina; uma interpretação provisória não se tornará doutrina por ter sido desenvolvida aqui com mais detalhe.
A consequência prática para o leitor são as três convenções de citação declaradas na Introdução, “o Unismo afirma”, “o texto-base interpreta” e “esta investigação propõe”: elas são enfadonhas e são a única maneira de fazer o trabalho sem usurpar a voz do texto fundador.
O que permanece aberto
Duas dificuldades ficam registradas. A primeira é epistemológica: a definição de trabalho de conhecimento deixa sem tratamento o acerto casual, como o próprio texto admite; isso não afeta o uso que o livro faz da distinção entre crer e saber, mas afeta uma pergunta que o capítulo 22 fará, sobre se uma experiência interior pode alguma vez contar como justificação, e de que tipo. A segunda é a estabilidade da adesão refletida: crer com razões que se reconhecem insuficientes é uma atitude que muitos filósofos consideram instável, porque a razão tenderia a converter a insuficiência em suspensão do juízo. O texto-base responde que a adesão orienta uma existência (questão 3), que se pode viver segundo uma esperança não verificada (questão 52) e que a adesão refletida deve reconhecer quando a investigação enfraquece a convicção (questão 164); que viver exige decidir antes que todas as questões estejam resolvidas é leitura desta investigação. Se essa resposta basta é o que o capítulo 27 examinará, com a ajuda do que os capítulos intermediários tiverem mostrado.
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Da obra
Uma Raiz, Muitas Vidas — investigação filosófica, religiosa e moral sobre os fundamentos do Unismo, com o texto integral do Livro dos Fundamentos. Edição de estudo, gratuita, sem indicação de autor (CC BY-NC-SA 4.0).
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